Pois é. Afazeres vários têm-me arredado da blogosfera e os meus leitores (sempre em número crescente, já são quase 5 desde que convenci a minha família a vir cá) estavam a ficar impacientes. Além disso, foram feitos alguns reparos ao rumo editorial do site: “Ó filho, isto está muito giro mas fala pouco sobre viagens” foi um dos comentários mais ouvidos
Sempre sensível ao público, recordo agora a minha última incursão ao Norte de África, na Primavera de 2003.

Na altura viajava sem máquina fotográfica, mas arrependi-me logo. A beleza das paisagens e o exotismo das cidades precisavam de ser registadas e lá consegui arranjar uma câmara descartável, um verdadeiro achado naquelas paragens. Se o saudoso D. Sebastião algum dia regressar de lá, há-de passar por estas montanhas que circundam Chefchaouen…

Atravessamos o Estreito em direcção a Ceuta, um pedacinho de Europa desde 1415 graças aos Portugueses. Explicaram-me no Museu Militar da cidade porque é que a sua conquista foi um dos maiores feitos militares de todos os tempos (o facto de ter sido dada por um espanhol torna a informação credível). Foi a primeira de muitas referências a Portugal na viagem. Aprendi, entre outras coisas, que Casablanca foi fundada pelos Portugueses e que lhe chamavam “Casa Branca”. Abaixo, um pôr-do-sol visto da bela cidade muralhada de Arzila, nosso entreposto comercial durante séculos.

Cruzamos portanto a fronteira em Ceuta. A fronteira entre Espanha e Marrocos, Ocidente e Islão, Norte e Sul. Mas não vi choque de civilizações, e tive mais medo dos carteiristas do que dos terroristas. Vi sobretudo pessoas que lutavam por uma vida melhor para si e para os filhos com menos de €100 por mês, e nunca baixavam os braços porque não podiam. Ofereciam-nos chá de menta por tudo e por nada e diziam que gostavam de nós (portugueses) porque regateávamos muito. Um comerciante chegou a dizer-me que “se um cliente não regateia, é porque não dá valor ao produto”. Paradoxal, no mínimo…

Passei por um bosque de cedros (os maiores que já vi) povoado por umas criaturinhas simpáticas comedoras de amendoins:

Ah, e também vi neve! Para mim que cresci no litoral, isso é sempre uma festa…

Foi na cordilheira do Atlas. A estrada era horrível, horas e horas de curvas, mas valeu a pena o sacrifício.

Fui um turista dedicado. Visitei a Ménara de Marraquexe e os belíssimos jardins e parque biológico adjacentes. Tirei esta fotografia sofrível à Mesquita Koutoubia, outro dos ex-libris da cidade. Surpreendeu pelo cosmopolitismo e relativa modernidade esta Marraquexe, com as suas avenidas largas herdadas da França colonial. Sentia-se a movida todas as noites e viam-se mais mini-saias e tops decotados do que numa cidade europeia. E não eram as turistas que as usavam, eram mesmo as marroquinas. A lei que daria às mulheres direitos iguais aos dos homens (a Moudawana) só chegaria no Outono desse ano, mas já se falava disso. E sentia-se, na rua.

Como qualquer turista dedicado, entrei em Fez pela porta Bab Bou Jeloud e visitei o bazar. Mas a parte da viagem que me marcou mais foi mesmo a passagem pelo deserto. O Sara não é nada como eu imaginava. Os oásis não são um par de tamareiras ao lado de um poço, mas sim grandes áreas densamente povoadas de vegetação luxuriante onde chegam a viver milhares de pessoas.

Além disso, as grandes extensões com dunas de areia fina são a excepção e não a regra. A paisagem típica do deserto é inóspita, sim, mas pedregosa (aqui, com uma tenda berbere ao fundo):

Claro que tivemos que passar por uma zona de areia (Merzhouga). Subimos a uma duna com mais de 100m de altura…

…para admirar o pôr-do-sol numa das paisagens mais bonitas e tranquilas que já vi.

Lá, a centenas de quilómetros da auto-estrada mais próxima, o tempo ainda corre devagar. Não há o assédio organizado ao turista ocidental que nos obriga a andar em grupo nas cidades, e aqueles que sabem francês falam connosco só pelo prazer de nos ouvir descrever países distantes, ou para discutir futebol e política com alguém diferente. Na altura, o Bush filho preparava-se para invadir o Iraque e o processo de paz na Palestina continuava no caos de sempre. Foi uma surpresa para mim quando eles puxaram esses assuntos e verifiquei que as nossas opiniões tinham muitos pontos comuns. O essencial é haver moderação, e ela existe. Lá e cá. Só no futebol é que não. Aqueles ignorantes tiveram o desplante de dizer que o Zidane era o melhor do mundo na altura, quando toda a gente sabe que era o Figo :p
Pormenor da nossa pousada, perto de Merzhouga:

Resumindo, Marrocos surpreende pela multiplicidade das paisagens, dos aromas, da gente e dos sabores. Acima de tudo, é onde o Oriente está mais próximo de nós.

PS: Um agradecimento especial à Rachel e ao Ed, turistas fotograficamente mais precavidos do que eu, por divulgarem o álbum da sua viagem a Marrocos. Tomei a liberdade de incluir algumas das suas fotos no meu relato (a primeira e as duas últimas). Agora já aprendi a lição, máquina sempre à mão