Em todas as viagens de trabalho há espaço para um bocadinho de lazer. Ou se não há, devia haver. Fiel a esse princípio, lá arranjei dois fins de tarde para passear um pouco, numa viagem de três dias. Desta vez, tive a sorte de as minhas andanças matemáticas me levarem à terra dos relógios, das vacas e dos chocolates. E fiquei encantado.

Agora já sei porque é que os Suíços não querem saber da União Europeia para nada. Têm um pedacinho de Paraíso encravado nos Alpes e não o querem partilhar com ninguém. Tudo está impecavelmente organizado, desde os jardins públicos e das casas particulares até aos transportes públicos.

Fiquei com a impressão de que todas as noites saem à rua uns duendezinhos trabalhadores que limpam e arrumam tudo com extremo cuidado. E pareceu-me que isso é apenas a face visível de uma maneira de estar na vida. O cidadão confia nas instituições e as instituições confiam no cidadão até prova em contrário, ao invés da prática corrente no Sul da Europa, que é questionar toda e qualquer autoridade (da parte do cidadão) e considerar todos os indivíduos como potenciais prevaricadores (da parte das instituições).
É uma diferença completa de paradigma. No Sul passa-se o tempo a resmungar porque a autoridade é laxista (no mínimo) e/ou corrupta (no máximo), mas se houvesse troca de papéis, o resmungão inicial seria provavelmente pior. Grande parte das vezes, o desafio à autoridade não vem de um recto sentimento de cidadania contra as más práticas, mas de uma inveja comezinha por não poder praticá-las também. “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte”, diz o povo. E se um povo atesta e aprova afirmações destas como “sabedoria” está tudo dito sobre esse povo…
Mas voltando aos encantos da Suíça, mais precisamente da bela e agradável Lausanne. Ao que parece, bela e agradável já há muitos anos.

Lausanne em 1900 (fonte: Wikipedia)
Já naquela altura a cidade era pólo de um turismo de elite. Pessoas bem nascidas e requintadas vinham passar temporadas num ambiente bucólico. Passeavam em frente ao lago Genebra, deleitavam-se com a fabulosa vista dos Alpes franceses, comiam chocolates e bebiam Evian. A propósito, a nascente era mesmo ali em frente, do outro lado do lago. Quando de fartavam andar e beber água, sentavam-se numa esplanada e entregavam-se às terrenas delícias do bom vinho local e dos crepes de queijo. Eu próprio experimentei-as e recomendo.
Um dos bem nascidos e requintados veraneantes era Gabriel Fauré, ilustre compositor francês contemporâneo de Claude Debussy e Maurice Ravel. É considerado “o mestre da melodia francesa” e consta que vinha muitas vezes procurar inspiração nas belas paisagens suíças. Foi em Lausanne que compôs em 1898 uma das suas obras-primas, “Pélleas et Mellisande” (música de cena para peça de teatro). Mais de um século depois, em 2007, a peça foi finalmente tocada pela primeira vez na cidade e a efeméride teve direito a placa de mármore comemorativa na Ópera de Lausanne.
Quando vi a placa, lembrei-me imediatamente das preocupações e trabalhos que tive em adolescente por causa do senhor Fauré. Tive que tocar a sua Fantasia nº1 para flauta e piano num exame e não foi nada fácil. De qualquer forma é uma peça belíssima, quando bem tocada. E esta linda menina toca-a melhor do que eu.
Músicas à parte, claro que fui ver mais de perto a torre do castelo. Repare-se no belo relógio de sol na parede, à esquerda.

Torre do Castelo
Datado de 1925, ostenta a afirmação: “Eu só marco horas claras”. Humor suíço dos loucos anos 20. Belo trocadilho, sim senhor.

De lá de cima tem-se uma bela panorâmica do Outono em Lausanne.
Em todo o lado se vêem relógios públicos (curiosamente todos analógicos) patrocinados por conhecidas marcas de joalharia e relojoaria. Este foi o mais bonito que vi.

A cada hora certa, há baile naquela casa

E pronto. Voltei com uns quilos de chocolates na mala (já que os relógios eram caros e as vacas muito grandes…) e muita vontade de voltar. Talvez no Verão. A ver vamos…

Nunca tinha pensado visitar a Suiça, era país que nada me dizia mas conseguiste convencer-me a pensar nisso.
Muito bem escrito!
Obrigado, pela parte que me toca…
Lindíssima Suíça – saudades imensas deste país!