Fim de tarde. Apeteceu-me vir ao mar molhar os pés, mas o vento já é demasiado agreste para os meus calções e ti-xârte. Indumentária de calor com os dias contados. Não tarda nada vão para o escuro de um armário esperar quase um ano novamente, junto aos chinelos de enfiar o dedo…
O sol aproxima-se da linha do horizonte. Há algumas nuvens, poucas, no caminho que lhe falta percorrer. Já começam a tingir-se de todas as cores entre o laranja-fogo e o violeta. O pôr-do-sol vai ser lindo. Vou para a areia seca, sento-me e aguardo.

O Verão é uma pausa. Deixamos a vida real à espera, com tudo o que ela tem de enfadonho e corriqueiro (mas também de seguro e confortável). Sonhamos. Andamos com a cabeça nas nuvens porque sentimos que nos podemos dar a esse luxo.
Uma destas noites vi-a, no Porto. Sabia que era impossível ela estar ali naquele momento. E no entanto. Na cabine do DJ, o Nicola Conti tinha finalmente passado do dance beat mais comercial para o jazz de que toda a gente estava à espera. Muitos uniram-se em aprovação ruidosa e ele deve ter sentido o público na mão, porque sorriu enquanto trocava um vinil por outro. Não olhou para a audiência, nunca o faz. Mas juro que vi as pontas dos lábios franzirem-se, formando um sorriso naquele rosto habitualmente impassível. E então vi o meu Verão.
Cabelos longos castanhos claros, pele muito branca apesar da época, atitude desprendida. Não havia que enganar. Vi as tardes de praia, os banhos de mar, as noitadas, as viagens, os sonhos, os amuos, as aventuras, os pores-do-sol, os momentos felizes e os castelos no ar. Se ela estava ali, era porque o Verão ainda não tinha acabado. Enquanto ela ali estivesse ele ainda durava. Por isso nem me passou pela cabeça ir ver se era ela realmente. Para não desmoronar todas as minhas certezas.
Começa um solo de trompete magnífico. Ouço-o em fundo, como a banda sonora de um filme. Será gravação do Miles Davis? Pelo menos soa a Miles Davis, pensei. De qualquer forma, não interessava. Eu ainda andava algures entre os pores-do-sol, os momentos felizes e os castelos no ar. Entretanto o trompetista (Miles?) acaba o solo e entra a banda, frenética e febril. E eu volto a olhar na sua direcção, mas ela já não está lá. Será que alguma vez esteve?
Levanto-me e sacudo a areia, de volta à vida real. Corriqueira, enfadonha, segura e confortável. Alguns miúdos ainda jogam à bola na zona das barracas, que agora são esqueletos de madeira. Aproveito a luz cadente do crepúsculo para sair da praia. Um casal de namorados beija-se apaixonadamente na areia. Ainda não repararam que pôr do sol já acabou. E o Verão também.
«Levanto-me e sacudo a areia, de volta à vida real. Corriqueira, enfadonha, segura e confortável. Alguns miúdos ainda jogam à bola na zona das barracas, que agora são esqueletos de madeira. Aproveito a luz cadente do crepúsculo para sair da praia. Um casal de namorados beija-se apaixonadamente na areia. Ainda não repararam que pôr do sol já acabou. E o Verão também.»
Não sei porquê meu caro Fardilha, talvez por te conhecer, mas este jeito poético com um fundo de sons de melancolia, não combinam nada contigo
Se calhar sou eu…
Abraço
Fico sempre assim com as primeiras chuvas de Outono.
Já regressei à rotina há umas semanas, mas agora já não cheira a Verão. É dessa transição que vem a melancolia…
Abraço
Tal como o jota julgo que ete texto em nada combina contigo.
Combina contigo porque és tu que a escreves.
E sim, já percebi o que querias dizer com o “já leste o meu post de fim de verão?”.
Parece bonita, a história da areia nos pés e castelos no ar.
eu cá gosto.
Que profundidade, que veia poética… darias um excelente romancista!
Qual matemático, qual quê… Começa a publicar uns livros e vais ver que tens imenso sucesso!
Escrever livros? Estás louca. A Matemática tem os seus problemas, mas dá muito menos trabalho…