No início do Verão, estava a passear por Lisboa com uma amiga. Era uma daquelas tardes agradáveis, soalheira mas sem ser insuportavelmente quente. Uma brisa agradável vinda do Tejo temperava a calma de sábado à tarde na Baixa Pombalina. E então ela disse:
“Estás a ver? Esta é a Lisboa que eu amo.”
Tive uma sensação de déjá vu. Era a segunda vez em menos de um ano que ouvia aquela frase. As mesmas palavras, também numa das ruas traçadas a régua e esquadro da Baixa, só que a brisa era vento húmido e frio de Dezembro. E soube que era um homem com sorte. Pela segunda vez alguém me mostrava, mais do que ruas e recantos da cidade em que eu nunca tinha reparado, a alma da própria cidade. Chamando-me a atenção para a maneira como as pessoas viviam, para a vista lindíssima que se obtinha se se descesse a colina por esta ou aquela travessa estreita, para a tal “luz especial” de que falava Wim Wenders quando filmou “Viagem a Lisboa” (“Lisbon Story”). Filme de 1994, ano já longínquo em que a capital portuguesa foi também capital europeia da cultura.
“Esta é a Lisboa que eu amo.” Foi assim que soube que tinha que escrever sobre Lisboa. Estava destinado.
A maioria das pessoas que lá vivem ou trabalham nunca andaram no eléctrico 28, nem subiram o elevador de Santa Justa, nem deambularam sem destino por Alfama. Naquela tarde fiz isso tudo e não me arrependi.

Largo do Carmo com fonte e igreja do Carmo (Fonte: Wikipedia)
A tarde começou com uma visita ao Chiado. Rápida, porque aquele já era terreno bem conhecido e cartografado na minha memória. Subimos logo para o Carmo e visitamos a igreja onde morreram centenas de fiéis que foram à missa no trágico dia 1 de Novembro de 1755. Durante o Terramoto de Lisboa, grande parte do telhado caiu sobre eles. A nave principal da igreja permanece tal qual ficou após a catástrofe e pode ser visitada. Na parte da igreja onde o telhado resistiu, existe hoje um museu arqueológico sobre a Pré- História em Portugal. O espólio inclui duas múmias muito bem conservadas. Muito interessante, para quem não for facilmente impressionável.

Ruínas do Carmo
Esta igreja fazia parte do Convento do Carmo, mandado construir por D. Nuno Álvares Pereira em 1389. Dom Nuno, também conhecido como Santo Condestável, doou mais tarde todos os seus bens ao convento. Chegou mesmo a ingressar nele em 1423, depois de uma vida dedicada às artes militares. O homem que liderou o exército português na vitória de Aljubarrota ali viveu, em recolhimento, até ao fim dos seus dias. Curiosamente, morreu a 1 de Novembro de 1431.

O resto do edifício do convento foi transformado em quartel militar após o terramoto e foi aí que Marcelo Caetano se refugiou no dia 25 de Abril de 1974 com a família e alguns homens da sua confiança, apanhado de surpresa pelos acontecimentos. Ali viveu-se um dos momentos mais tensos da revolução, quando as tropas rebeldes chegaram para o prender e o encontraram entrincheirado no quartel defendido por uns poucos militares ainda fieis ao regime. O espírito apaziguador e o sangue frio de um oficial desconhecido e idealista evitaram males maiores. Foi o capitão Salgueiro Maia que negociou a rendição do senhor Presidente do Conselho e posterior partida para o exílio no Brasil.
Dali subimos ao elevador de Santa Justa, mesmo ao lado, e deleitamo-nos com a paisagem. No fim daquela tarde trouxe muitas fotografias na máquina, mas muitas mais na memória. Lisboa tem mesmo uma luminosidade especial. Salvaguardadas as devidas proporções, acho que compreendo um bocadinho o Wim Wenders. E há tantos recantos de onde é possível descobrir um novo olhar, uma nova perspectiva sobre o belíssimo casario com o enorme espelho de água do Tejo lá ao fundo. O facto da cidade estar construída sobre colinas favorece a existência de miradouros e recomendo a visita a todos eles.

Eléctrico 28 no Largo da Graça
Muitos deles ficam perto do percurso do eléctrico nº 28, incluindo o miradouro da Graça. Existe lá uma esplanada muito agradável, onde vi o pôr-do-sol ao som de jazz, acompanhado por um Martini. Erro crasso, eu sei, devia ter escolhido algo mais adequado, porventura uma ginginha…
De dentro do 28, vi também a Sé Catedral…
…a Assembleia da República…

Assembleia da República Portuguesa
…e ruas sem nada de especial, a não ser estarem cheias de vida. E a campaínha do 28 ouvia-se enquanto ele furava pelo bulício das ruas, às vezes passando tão rente às paredes das casas que até parecia que lhes ia tirar um pedaço.

Mas o danado do 28 não foi até ao destino. Na viagem de regresso, ficou a meio caminho. “O das 19h não vai até ao Martim Moniz”, esclareceu o guarda-freios. Tudo bem, da próxima vez consulto o horário. Tivemos que dar corda aos sapatos, esperavam-nos para jantar no Bairro Alto. E tive o privilégio de descer Alfama durante o pôr-do-sol. Abençoado eléctrico das 19h.
Lá chegamos ao Martim Moniz para, pasme-se, dar de caras com um arraialzinho. Era noite de S. João. Uma banda tocava as modinhas do costume para uma pequena plateia multi-étnica. Os remorsos por não estar no Porto fizeram-me alinhar no bailarico. Há sempre tempo para um pézinho de dança, e no Bairro Alto tiveram que esperar por nós mais um quarto de hora. Fomos felicitados em Português do Brasil pela nossa vivacidade no baile.
Entrei no elevador da Glória ao telefone com o S. João do Porto, na pessoa do meu tio, que me recriminava pela minha ausência. E finalmente, já noite cerrada, cheguei ao restaurantezinho no Bairro Alto. Tinham começado sem nós. Bem feita.
Feitas as contas, valeu a pena ficar em Lisboa no S. João. Muito obrigado a todas as pessoas que me ensinaram a amar esta cidade!




Há locais de Lisboa que nem os lisboetas conhecem… é sempre aquele pensamento de “é aqui tão perto, posso lá ir em qualquer altura”…
Essa sim, “é a Lisboa que eu amo messsmmmooooooooooo” lindo Tiago. Parabéns
Miguel, eu próprio sou assim com o Porto. Mea culpa, mea culpa…
Carla, eu também. Obrigado.
Hello Tiago
É mesmo linda a minha Lisboa… em qualquer altura do ano, com um sol abrasador ou uma chuva que molha até aos ossos, Lisboa tem sempre inúmeros encantos!
Beijos
Sofia