É já noite cerrada. As ruas estão desertas. Uma aragem fria e desagradável agita as copas das árvores, apesar de ser Primavera. Três silhuetas curvadas atravessam a larga avenida, logo depois de passar um eléctrico quase vazio. Os tentáculos do lobby do petróleo não chegaram à Alemanha comunista, e por isso os característicos eléctricos brancos continuam a andar por toda a Berlim-leste. Os três estranhos (obviamente não são da cidade) param no cruzamento junto à grande ponte de ferro e trocam algumas palavras, como que a decidir para onde ir. Acabam por não a cruzar. Viram à direita, seguindo o eléctrico que se vê ainda ao fundo da rua. Passados cinco minutos, entram dois homens e uma mulher num pacato hotel da Grunauer Strasse. O recepcionista não parece surpreso com a tardia hora de chegada e, após breve troca de palavras, dá-lhes as respectivas chaves. Ele não sabe, mas o espião acabou de chegar ao seu destino.
E pronto. Aproveitei a minha primeira estadia em território da antiga RDA para fazer uma introdução à John le Carré. A minha missão de espionagem em Berlim durou uma semana e foi bastante frutífera.
Descobri pedacinhos de paraíso como este.
Foi uma boa escolha, visitar Berlim na Primavera. Havia flores lindíssimas em todos os parques e jardins que visitei, quase todos tratados com um cuidado que roçava o perfeccionismo. E em quase todos os jardins, arte.
A cidade espraia-se por uma ampla planície polvilhada de lagos e tem-se a impressão que cada lago deu origem a um jardim, o que torna Berlim uma das cidades mais verdes que já vi.
No que diz respeito ao urbanismo, é exemplar com as suas avenidas largas e arborizadas, transportes públicos eficientes, passeios grandes e ciclovias por todo o lado.
Para este urbanismo exemplar “contribuíram” em grande medida os Aliados na 2ª Guerra Mundial, arrasando grande parte da cidade, incluindo monumentos históricos.
Quando o Exército Vermelho tomou a cidade em 1945, havia muito poucos edifícios de pé. Morreram muitos milhares de civis inocentes nos bombardeamentos e na conquista de Berlim. A propósito, aproveito para recomendar um filme excelente passado em Berlim. “A Queda”.
Ainda se nota a diferença ao entrar em Berlim-Leste. Os edifícios enormes em forma de paralelepípedo eram a regra, no tempo do comunismo e da economia planificada. Construíam-se bairros planeados de forma a haver uma densidade populacional pré-determinada, assim como um número pré-determinado de centros de saúde, infantários, lojas e cafés por cada 1000 habitantes. Agora é o mercado a ditar a maior parte desses rácios, mas a herança ficou. Não se julgue, no entanto, que estes bairros são maus sítios para viver, pelo contrário. Se não acreditam, vejam.
E já que estou numa de recomendar filmes, deixo aqui uma amostra de outro filme excelente cuja acção decorre em Berlim, “A Vida dos Outros”. Trata da relação curiosa que se desenvolve entre um inspector da Stasi (a polícia política da antiga Alemanha de Leste) e um casal de artistas que ele vigia. Pode parecer que não, mas é uma história bonita.
Dediquei alguns dias a passear pelos arredores. Abaixo, vista do “Schloss Charlottenburg”, mandado construir pelo 1º Imperador da Prússia, Frederico I, para a sua rainha Charlotte passar os Verões.
No início do séc. XVIII, a Alemanha não existia. Em seu lugar havia um mosaico de pequeninos reinos, principados e cidades-estado mercantis. Frederico ascendeu de Príncipe-eleitor de Berlim-Brandenburgo a Imperador da Prússia. Fê-lo da maneira tradicional à época, isto é, varrendo alguns principados vizinhos a golpes de espada e tiros de mosquete, e depois ameaçando outros que os varreria da mesma forma caso não se “aliassem” a ele no desígnio de fundar um império. A diplomacia é uma coisa muito bonita, e vários príncipes concordaram em apoiá-lo. Charlotte tornou-se assim na primeira Imperatriz da Prússia, com palácio e jardins a condizer com o título, bem entendido.
O Imperador podia ser duro nas “negociações” diplomáticas, mas a sua virtuosa e adorada esposa conseguia tudo o que queria dele. A prova está neste canal de uns 10 km que mandou construir desde o centro de Berlim até Charlottenburg, depois dela se queixar do incómodo que era viajar de carruagem entre a cidade e o palácio. Vida boa…
Por falar em canais, refira-se que eles nos aparecem em Berlim atrás de cada esquina. Ao contrário dos de Veneza, estes foram quase todos construídos pelo Homem. O que só lhes acrescenta valor, embora a maioria não tenha uma história glamorosa de princesas e imperadores na sua origem. Nem gondoleiros cantantes em barcos típicos. Felizmente, digo eu.
Todos eles são alimentados pelo rio Spree e são cruzados todos os dias por dezenas de barcos de recreio e de mercadorias.
Precisamente no meio do Spree fica a “Museumsinsel” (Ilha dos Museus), paragem obrigatória para qualquer amante de arte. Já não me lembro em qual dos museus da ilha vi esta escultura representando Pã, o deus com pés de cabra conhecido por ser flautista e devasso, tentando seduzir uma inocente ninfa dos bosques. Em miúdo tinha uma predilecção por pã (aprendi muito cedo a tocar flauta transversal) que não era muito apreciada pela minha catequista. Só mais tarde é que vim a perceber porquê.
A cidade tem museus belíssimos dentro e fora da ilha e quase todos merecem uma visita. Além dos da Museumsinsel, recomendo o Museu de Artes e Ofícios (”Kunstgewerbe Museum”), a Nova Galeria Nacional (”Neue Nationalgalerie”) e os museus dos palácios: Schloss Charlottenburg, Schloss Köpenick e Schloss Sanssouci, este último em Potsdam. As pedrinhas azuis nestas jóias são safiras.
Tive tempo para ver todos os monumentos famosos, incluindo os mais feios. Parece que este edifício ganhou não sei quantos prémios de arquitectura. Não percebo porquê…
Ainda tive tempo para ir à belíssima Potsdam, a meia hora de distância de “S-Bahn” (comboio-metro suburbano) de Berlim. Lá, maravilhei-me com mais palácios no “Parc Sanssouci” (francês para “sem preocupações”), onde o Imperador Frederico o Grande (neto do outro Frederico) descansava dos assuntos de estado. O facto de chamar “império” à Prússia, um reino bastante mais pequeno do que a França, revela o quanto os descendentes de Charlotte de Saxe-Coburgo se levavam a sério. Num acesso de novo-riquismo típico dos jovens impérios, construiu um complexo de palácios monumentais.
Os palácios estavam separados (ou ligados…) por enormes e bucólicos jardins, com arte a cada curva do caminho.
Este Frederico era um homem enérgico e voluntarioso. Tornou a Prússia numa potência europeia, usando métodos mais modernos que o avô, embora não muito diferentes. Varreu os principados vizinhos a tiros de fuzil e golpes de baioneta.
No entanto, era um homem de grande sensibilidade artística e continuou a tradição de mecenato que já vinha do tempo da sua avó. Além disso, preferia a música à caça. Era um flautista exímio, tendo composto várias sonatas que ainda hoje são tocadas. Fez-se pintar dando um recital de flauta transversal para a corte.
Os jardins foram sendo modificados ao longo do tempo, ao gosto dos ocupantes. Construíram-se alamedas para passear entre as estufas, lagos, casas de férias, uma capela e até umas termas ao estilo romano.
Uma das princesas tinha uma predilecção especial pela China, e daí resultou esta casa de chá.
Termino com uma curiosidade. Em Berlim vi muito poucos pombos, que costumam ser uma praga nas cidades. Será do clima? A fauna mais abundante, para além dos humanos, eram os corvos. Estavam em todo o lado, e também em Sanssouci.
E além dos corvos, os patos. Em todos os parques havia um lago e em todos os lagos havia patos. Muito grasnadores e simpáticos, desde que lhes dessem umas migalhas. Este casal até saiu do lago, a pedi-las ruidosamente.
E pronto. Missão cumprida. Regressei, qual OO7, para dar conta a Sua Majestade das informações recolhidas…






















Excelente!!!
Não esperava que Berlim ainda vivesse tanto o revivalismo pré-queda do Muro… é um fenómeno interessante…
Bem, o “revivalismo” turístico está todo lá, com os americanos e japoneses todos (feitos parolos…) ) a tirar fotos no “Checkpoint Charlie” e nos pedacinhos de Muro que ainda sobram pra turista ver.
Na cabeça das pessoas, não sei se há revivalismo ou nostalgia daqueles tempos, mas as marcas históricas ainda estão lá, para quem as souber ver…
Interessante e paradoxal a harmonia da diversidade…
Enquanto via a reportagem fotográfica assaltou-me a ideia da “alma das coisas” (desculpem-me os eruditos e os mais púdicos), mas o mérito é do Homem ou da máquina?!
PARABÉNS
Espero pela próxima…
Eu acho que a maior parte do mérito é das coisas, que estão lá. Pura e simplesmente. Depois há a pequenina parte do mérito do Homem que repara nelas e lhes vê a alma. E, de vez em quando, fotografa. E, de vez em quando, calha bem…
Antes de mais um elogio à maneira simples mas eficaz com que descreve a sua visita.
Quero no entanto rectificar e comentar alguns pormenores:
- os eléctriccos são amarelos
- fica a ideia (errada) que tiergarten fica em leste
- idem em releção a Gedächtnis-Kirche
- a estátua de pã presumo que seja no Bodemuseum
- a estátua e respectiva fotografia junto à Neue
Nationalgalerie ficam em berlim oeste
- a Philharmonie foi construida entre 1960 e 1963 e só o
exterior dourado é que foi acrescentado entre 78 e 81
Não pense que isto quer dizer que não gostei, bem pelo contrário, escreva mais!
Os eléctricos são amarelos? Era capaz de jurar que os que eu via a subir a Grunauer Strasse e a virar para a ponte de Köpenick eram predominantemente brancos. É no que dá fazer viagens em Maio e escrever sobre elas em Julho…
Quanto ao resto, correcções feitas. Brinquei com o facto de estar hospedado na antiga Berlim-Leste, mas rapidamente comecei a falar de locais na antiga Berlim-Oeste. Não era minha intenção dar a ideia que o Tiergarten ou a Gedächnis Kirsche estavam do lado errado da cidade.
Quanto à Neue Nationalgalerie, enganei-me mesmo. Passamos aquela tarde a passear a pé, começando no Leste, e quando lá cheguei pensei que continuava no Leste. Felizmente já não havia nenhum muro a barrar-me o caminho…
E claro que vou escrever mais, só preciso é de mais oportunidades para viajar!