Não é só em Portugal que se discutem aeroportos. Uma das polémicas na ordem do dia em Berlim até à semana passada era sobre o aeroporto de Tempelhof, construído em característica arquitectura do Terceiro Reich e que hoje se situa quase no centro da cidade. Tem uma carga sentimental grande para os Berlinenses pelo papel que desempenhou nas várias pontes aéreas dos Aliados da Europa Ocidental para Berlim-Oeste no tempo da Guerra Fria e dos vários bloqueios terrestres impostos àquela metade da cidade pelos soviéticos, que foi uma “ilha” dentro do bloco comunista desde 1948 até 1989.
A seta (não o “x”
) assinala o aeroporto, no sector aliado, bem dentro da zona urbana. Passados esses tempos conturbados, a questão era a seguinte: Ou desmantelar o aeroporto para “entregar o espaço à cidade”, ou remodelar o aeroporto para o tornar num “aeroporto de negócios” para VIP’s e gestores de topo poderem aterrar no centro urbano (tempo é dinheiro). Até houve um referendo regional sobre o assunto há mais ou menos uns dez dias. Com direito a campanha eleitoral, debates na televisão, dossiers nos jornais, cartazes nas ruas e essas coisas todas. Neste um trabalhador diz, em característico dialecto berlinense, “Eu cá não pago por um aeroporto VIP!”.
Este outro apela ao sentimento, ao utilizar a famosa afirmação do presidente Kennedy, quando visitou Berlim-Oeste em pleno bloqueio terrestre soviético: “Eu sou um berlinense!”
Ou, dada a maneira curiosa como JFK pronunciou a frase, “Eu sou um donut!”, he, he. Acabou por ganhar o “sim” à manutenção do aeroporto. Curiosamente, o referendo revelou que ainda existem duas cidades. O “sim” perdeu em todos os distritos da antiga Berlim-Leste, mas teve uma votação esmagadora no antigo sector ocidental.
É isto a democracia participativa. Quando há decisões importantes a tomar, põe-se as cartas em cima da mesa, discute-se entre todos e decide-se.
Será que em Portugal alguém se vai lembrar de pedir um referendo regional para decidir o que vai ser do aeroporto da Portela quando o novo estiver construído? Temo que não, e tenho pena. Durante a novela da decisão sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa, uma das poucas vozes lúcidas que ouvi falava sobre a possibilidade de manter o aeroporto da Portela. Não como aeroporto principal, a tal ridícula opção “Portela +1″ que só adiava o inevitável, mas como aeroporto de negócios à semelhança do que os berlinenses discutiram para Tempelhof. Outra opção seria criar uma grande zona verde, à semelhança do Hyde Park de Londres. Fazem falta zonas verdes na Grande Lisboa, como toda a gente sabe. Ou então entregar toda aquela zona à especulação imobiliária e deixar o mercado funcionar, sei lá. Mas os lisboetas deviam ter uma palavra a dizer sobre o destino do seu velhinho aeroporto. Referendo já!


