Um dos meus desportos preferidos é ir visitar os amigos. Especialmente quando estão emigrados em sítios interessantes. Só tive uma pequena amostra do que é a saudade do nosso jardim à beira-mar plantado quando estive um mês afastado na Alemanha e, na última semana, até do Toni Carreira sentia falta.
Portanto, toda a gente fica a ganhar. Eles, porque lhes levo um bocadinho de casa. Eu, porque tenho o melhor guia turístico que se pode querer. Alguém que conhece a cidade ou a região em causa e que, mais do que debitar factos históricos ou curiosidades de pacotilha, me põe a par da sua vivência naquele lugar com aquelas pessoas. Como quem acrescenta uma banda sonora a um filme.
Fez na semana passada mais ou menos dois anos que regressei de praticar o meu desporto favorito num arquipélago árido perdido no Atlântico, ao largo do Senegal. Mais precisamente, na ilha de S. Vicente, cidade do Mindelo, capital cultural de Cabo Verde. Fui visitar a Anita.

Há quem diga que a Anita tem “um feitio muito próprio”. São opiniões. Na verdade, essa afirmação é um eufemismo para “tem uma língua viperina, é politicamente incorrecta e tem ocasionais explosões de mau génio”. Mas é uma amiga fiel e é assim que nós, os amigos, gostamos dela. E é mulher de coragem, não é qualquer pessoa que emigra para África de um dia para o outro, sem qualquer apoio exterior. Mas ainda bem que foi. Proporcionou-me o primeiro contacto com a África que fala português.

Uma África quente, acolhedora e sempre alegre, apesar das dificuldades. Encontrei um povo tão gentil que por vezes até me senti constrangido. Como quando eu estava de pé no autocarro e um senhor, que quase tinha idade para ser meu pai, se levantou e me ofereceu o lugar. E depois de eu o recusar dez vezes, e ele o tornar a oferecer outras dez, tive mesmo que sentar-me. Os cabo-verdeanos chamam “morabeza” a esta atenção, esta deferência para com aqueles que visitam as ilhas. Já de pé, o senhor explicou-me que na Praia, a capital política do país, as pessoas são “mal-educadas”, razão pela qual a “morabeza” se estaria a perder por lá. Sorri. Também ali havia rivalidades entre ilhéus, como nos Açores há entre os da Terceira e os de S. Miguel.

Na perspectiva da Anita, a morabeza era apenas a maneira peculiar de os cabo-verdeanos serem chatos. E quanto a educação, “são todos iguais, eu é que sei os assobios e os piropos que aturo, o que vale é que são em crioulo e não percebo”. Mas aposto que até os piropos eram inocentes, do tipo “bô é b’nite” – a primeira coisa que aprendi dizer em crioulo, “és linda”. Podia ser útil. Por exemplo no caso de eu encontrar a Mayra Andrade por lá.
Algo que me impressionou no país foi a evidente aposta na educação da sua imensa juventude (mais de metade da população tem menos de 30 anos). As estatísticas de alfabetização são quase de nível europeu. Há imensos ciber-cafés no Mindelo, sempre muito frequentados, e até nos cantos mais recônditos da ilha encontrei escolas sempre cheias de miúdos. Curiosidade: todas as escolas têm código de vestuário.

A estes três, dei-lhes boleia para a escola num Opel Astra alugado, em troca de direcções. Para eles foi uma festa.
Nesse dia, atravessei a ilha para ir até à vila do Calhau. Pelo caminho, fiz uma imagem que é uma metáfora daquela ilha, ou de todo aquele país.

Uma casinha muito bonita, impecavelmente pintada e murada no sopé de um monte inóspito. Assim é o arquipélago. O viajante que vê do avião aquelas pequenas ilhas, escuras do basalto vulcânico, montanhosas e áridas, pergunta-se como é possível morar nelas e viver do pouco que elas dão. E a resposta é: Com muito trabalho, sacrifício e organização. A necessidade aguça o engenho, como dizia o poeta. Por exemplo, aproveitam todos os metros quadrados de terra arável dos leitos das ribeiras, secas a maior parte do ano. Abaixo, a ribeira do Calhau, uma das poucas manchas verdes da ilha.

A escassez de terra arável e de pastagens leva a que a carne de vaca seja um luxo (e, geralmente, de má qualidade, dura como sola de sapato
). O único gado que vi foram algumas cabras que saltitavam naqueles montes despidos comendo a pouca vegetação espinhosa que surgia aqui e ali, por entre as pedras. Em compensação, o peixe é abundante e muito bom. O Atlântico ainda é generoso, naquelas paragens. Durante a minha estadia em S. Vicente, poucas coisas me deram mais prazer do que comer peixe-espada, cherne ou atum fresco numa qualquer esplanada, mirando o mar em boa companhia.

E pronto. Como esta viagem teve tanto para contar, vai ter direito a dupla entrada cá no blogue. Na próxima semana há mais.
Só conheço a Ilha do Sal que tem uma paisagem lunar… mas acho que as outras ilhas devem ser bem interessantes…
Hoje faz exatamente um ano que estive no Mindelo, em São Vicente, e realmente tudo o que escrevestes deste lugar é verdade. Assim como vc, eu também me surpreendi com a “morabeza” dos habitantes da ilha e com a surpreendente formação escolar das crianças. Sem nenhuma discriminação mas impressionante em se tratando de África. Sou brasileiríssimo mas meu coração também bate forte por Cabo Verde. Estás de parabéns por teus comentários.
Obrigado. O meu coração também bate por Cabo Verde desde que passei por lá.
so tenho uma coisa a falar de cabo verde simplismente espetacular a ilha de sao vicente
Olá, gostei das informações sobre Cabo Verde, tenha maio vontade de conhecer esse país.
Já fui 2 vezes a cabo verde passei por sao vicente, santo antao, sal e pelo aeroporto de praia =) amo este país … o contacto com a cultura, com as pessoas é fantastico…agora a maioria dos meus amigos sao caboverdianos e dizem-me k 51% de mim é cabo verdiana =)
não estou em cabo verde, mas cabo verde está sempre no meu coracao, na minha alma, na minha vida
Sempre sonhei em conhecer Cabo Verde. Poderia me mandar um e-mail, para trocarmos idéias? Gostaria de pedir dicas sobre o lugar, como ir etc. Gosto muito de viajar, mas não tenho companhia para fazer viagens dispendiosas como estas (moro no Brasil). Na verdade, gostaria de conhecer pessoas que sonham em conhecer os mesmos lugares que eu, para compartilhar idéias e, até mesmo, viagens. Um abraço!
Estive em mindelo em agosto do ano passado e foi sem duvidas uma experiençia maravilhosa recomendo a todos
este é de fato um lugar lndo, mistico e maravilhoso.
Boa gostei imenso ao ler um discurso simples e bonito
mas com tudo sobre a minha terra, que tanto eu gosto
olha eu sou de S.Vicente mas estive 12 Anos nos E.U.A.
e regressei desde de 1999 para minha terra natal.
em que eu digo todos os dias(tanto tempo a viver num País
rico mas com vida de pobre mas agora estou a viver na
minha terra pobre mas com vida de RICO). mas rico em convivencia.
Olá Tiago, tud dret? Sou Caboverdeana e é com muito orgulho que li o teu artigo. Fico muito feliz por trazeres boas recordações de Cabo Verde e principalmente da minha ilha São Vicente
. Esta semana por incrivél que pareça choveu com muita intensidade na minha santa terrinha, inclusivé tenho fotos fantásticas de Calhau todo verdinho. Se quiseres envias-me o teu mail e envio-te as fotos.
Bj fka dret