Uma das coisas mais reconfortantes na vida (pelo menos para nós, os egocêntricos) é a nossa tendência para acreditarmos que a vivemos melhor do que os outros. Mesmo que manifestamente não seja esse o caso. Deve ser daí que vêm mitos como o de que “o dinheiro não traz felicidade” ou que a fama, além de só durar quinze minutos, destrói a vida privada de quem a tem. Mas estes mitos, apesar de serem um pouco imbecis, são o que separa uma massa imensa de gente remediada e anónima da depressão profunda, he, he. Não os subestimemos, portanto.

Outro exemplo é o dos adolescentes. O que impede muitos deles de enlouquecer com as mudanças hormonais e vivenciais que experimentam é a certeza inabalável de que a sua vida seria idílica (e todo o mundo também, por arrasto) se os deixassem fazer o que querem. O mundo (retrógrado e irremediavelmente doente) é que não os deixa. Pessoalmente, acho que todas as decisões importantes da vida de alguém deviam ser tomadas antes dos 18, enquanto ainda se sabe tudo. Ou, pelo menos, tudo o que interessa


Lamentavelmente, essa omnisciência tende a desaparecer com a idade do indivíduo (idade mental, bem entendido, há quem não chegue nunca à idade adulta
), até eventualmente chegar ao estádio do outro respeitável senhor que só sabia que não sabia nada…

Nestes meandros do valor do conhecimento, do auto-conhecimento e das nossas relações com os outros, há coisas que nunca deviam mudar. Como os contos de fadas. Cinderela e Capuchinho Vermelho, boas. Bruxa e lobo, maus. Caubói, bom. Índio, mau. Padeira de Aljubarrota, boa. Meia-dúzia de soldados castelhanos, maus. Simples, como as pessoas gostam.

Mas hoje em dia, o herói de contos de fadas mais famoso é um ogre verde, parolo e flatulento chamado Shreck. Os índios afinal foram vítimas de uma guerra de extermínio pela mesma cavalaria que aparecia sempre nos westerns a salvar o herói e a donzela em apuros. E a padeira de Aljubarrota, se vivesse no século XXI, estaria a ser julgada por crimes de guerra. Nestes tempos de relativismo moral, nem o baluarte da boa e velha dicotomia “Bem/Mal” que é a Terra Média de Tolkien escapa. Não é que alguém teve a ideia de escrever a versão “orc” da célebre epopeia do hobbit Frodo e companhia?

Mais. Atreveu-se a descrever a Guerra do Anel como uma guerra de extermínio da “civilização orc, amante do progresso e das ciências” por parte de uma coligação conservadora e obscurantista de Elfos, Magos e Homens (estes últimos parceiros subalternos). Nem o amor imortal entre Arwen (princesa dos elfos) e Aragorn (pretendente a um trono dos Homens) escapa nesta nova (e vil) versão da história. Heresia!
Ora bem, agora a sério. Este Yeskov colocou a fasquia bem alta quando teve a ousadia de contradizer um autor como Tolkien. Mas safou-se bem. Teve a inteligência, a sagacidade e o talento para fazer algo mais do que uma simples sequela d’ “O Senhor dos Aneis”. Já fez melhor do que os descendentes do nosso saudoso Tolkien, que só sabem andar à procura de qualquer sarrabisco que ele tenha deixado perdido numa gaveta para o publicar imediatamente…
um dos grandes problemas é que hoje em dia já não heróis reais… temos de recorrer sempre à ficção animada para criar os heróis que gostaríamos…
A minha opinião é que antigamente também não havia heróis reais. Havia (como hoje) homens admiráveis, mas ainda assim simples homens, com virtudes e defeitos como todos. A diferença é que dantes faziam desses homens admiráveis ídolos (e alguns não tão admiráveis também) reescrevendo a história, e hoje não se faz isso.
Faz-se o contrário, desconstroem-se mitos, como o do caubói bom/índio mau, da mesma maneira que o Kiril Yeskov desconstruiu o “Senhor dos Anéis”. Mas esta fúria desconstrutivista deixa-nos com uma sensação de “orfandade” moral que nos faz recorrer aos tais heróis da ficção animada…