Em todas as viagens de trabalho há espaço para um bocadinho de lazer. Ou se não há, devia haver. Fiel a esse princípio, lá arranjei dois fins de tarde para passear um pouco, numa viagem de três dias. Desta vez, tive a sorte de as minhas andanças matemáticas me levarem à terra dos relógios, das vacas e dos chocolates. E fiquei encantado.
Agora já sei porque é que os Suíços não querem saber da União Europeia para nada. Têm um pedacinho de Paraíso encravado nos Alpes e não o querem partilhar com ninguém. Tudo está impecavelmente organizado, desde os jardins públicos e das casas particulares até aos transportes públicos.
Fiquei com a impressão de que todas as noites saem à rua uns duendezinhos trabalhadores que limpam e arrumam tudo com extremo cuidado. E pareceu-me que isso é apenas a face visível de uma maneira de estar na vida. O cidadão confia nas instituições e as instituições confiam no cidadão até prova em contrário, ao invés da prática corrente no Sul da Europa, que é questionar toda e qualquer autoridade (da parte do cidadão) e considerar todos os indivíduos como potenciais prevaricadores (da parte das instituições).
É uma diferença completa de paradigma. No Sul passa-se o tempo a resmungar porque a autoridade é laxista (no mínimo) e/ou corrupta (no máximo), mas se houvesse troca de papéis, o resmungão inicial seria provavelmente pior. Grande parte das vezes, o desafio à autoridade não vem de um recto sentimento de cidadania contra as más práticas, mas de uma inveja comezinha por não poder praticá-las também. “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte”, diz o povo. E se um povo atesta e aprova afirmações destas como “sabedoria” está tudo dito sobre esse povo…
Mas voltando aos encantos da Suíça, mais precisamente da bela e agradável Lausanne. Ao que parece, bela e agradável já há muitos anos.
Lausanne em 1900 (fonte: Wikipedia)
Já naquela altura a cidade era pólo de um turismo de elite. Pessoas bem nascidas e requintadas vinham passar temporadas num ambiente bucólico. Passeavam em frente ao lago Genebra, deleitavam-se com a fabulosa vista dos Alpes franceses, comiam chocolates e bebiam Evian. A propósito, a nascente era mesmo ali em frente, do outro lado do lago. Quando de fartavam andar e beber água, sentavam-se numa esplanada e entregavam-se às terrenas delícias do bom vinho local e dos crepes de queijo. Eu próprio experimentei-as e recomendo.
Um dos bem nascidos e requintados veraneantes era Gabriel Fauré, ilustre compositor francês contemporâneo de Claude Debussy e Maurice Ravel. É considerado “o mestre da melodia francesa” e consta que vinha muitas vezes procurar inspiração nas belas paisagens suíças. Foi em Lausanne que compôs em 1898 uma das suas obras-primas, “Pélleas et Mellisande” (música de cena para peça de teatro). Mais de um século depois, em 2007, a peça foi finalmente tocada pela primeira vez na cidade e a efeméride teve direito a placa de mármore comemorativa na Ópera de Lausanne.
Quando vi a placa, lembrei-me imediatamente das preocupações e trabalhos que tive em adolescente por causa do senhor Fauré. Tive que tocar a sua Fantasia nº1 para flauta e piano num exame e não foi nada fácil. De qualquer forma é uma peça belíssima, quando bem tocada. E esta linda menina toca-a melhor do que eu.
Músicas à parte, claro que fui ver mais de perto a torre do castelo. Repare-se no belo relógio de sol na parede, à esquerda.
Torre do Castelo
Datado de 1925, ostenta a afirmação: “Eu só marco horas claras”. Humor suíço dos loucos anos 20. Belo trocadilho, sim senhor.
De lá de cima tem-se uma bela panorâmica do Outono em Lausanne.
Vista do Castelo
Em todo o lado se vêem relógios públicos (curiosamente todos analógicos) patrocinados por conhecidas marcas de joalharia e relojoaria. Este foi o mais bonito que vi.
A cada hora certa, há baile naquela casa
E pronto. Voltei com uns quilos de chocolates na mala (já que os relógios eram caros e as vacas muito grandes…) e muita vontade de voltar. Talvez no Verão. A ver vamos…
Fim de tarde. Apeteceu-me vir ao mar molhar os pés, mas o vento já é demasiado agreste para os meus calções e ti-xârte. Indumentária de calor com os dias contados. Não tarda nada vão para o escuro de um armário esperar quase um ano novamente, junto aos chinelos de enfiar o dedo…
O sol aproxima-se da linha do horizonte. Há algumas nuvens, poucas, no caminho que lhe falta percorrer. Já começam a tingir-se de todas as cores entre o laranja-fogo e o violeta. O pôr-do-sol vai ser lindo. Vou para a areia seca, sento-me e aguardo.
O Verão é uma pausa. Deixamos a vida real à espera, com tudo o que ela tem de enfadonho e corriqueiro (mas também de seguro e confortável). Sonhamos. Andamos com a cabeça nas nuvens porque sentimos que nos podemos dar a esse luxo.
Uma destas noites vi-a, no Porto. Sabia que era impossível ela estar ali naquele momento. E no entanto. Na cabine do DJ, o Nicola Conti tinha finalmente passado do dance beat mais comercial para o jazz de que toda a gente estava à espera. Muitos uniram-se em aprovação ruidosa e ele deve ter sentido o público na mão, porque sorriu enquanto trocava um vinil por outro. Não olhou para a audiência, nunca o faz. Mas juro que vi as pontas dos lábios franzirem-se, formando um sorriso naquele rosto habitualmente impassível. E então vi o meu Verão.
Cabelos longos castanhos claros, pele muito branca apesar da época, atitude desprendida. Não havia que enganar. Vi as tardes de praia, os banhos de mar, as noitadas, as viagens, os sonhos, os amuos, as aventuras, os pores-do-sol, os momentos felizes e os castelos no ar. Se ela estava ali, era porque o Verão ainda não tinha acabado. Enquanto ela ali estivesse ele ainda durava. Por isso nem me passou pela cabeça ir ver se era ela realmente. Para não desmoronar todas as minhas certezas.
Começa um solo de trompete magnífico. Ouço-o em fundo, como a banda sonora de um filme. Será gravação do Miles Davis? Pelo menos soa a Miles Davis, pensei. De qualquer forma, não interessava. Eu ainda andava algures entre os pores-do-sol, os momentos felizes e os castelos no ar. Entretanto o trompetista (Miles?) acaba o solo e entra a banda, frenética e febril. E eu volto a olhar na sua direcção, mas ela já não está lá. Será que alguma vez esteve?
Levanto-me e sacudo a areia, de volta à vida real. Corriqueira, enfadonha, segura e confortável. Alguns miúdos ainda jogam à bola na zona das barracas, que agora são esqueletos de madeira. Aproveito a luz cadente do crepúsculo para sair da praia. Um casal de namorados beija-se apaixonadamente na areia. Ainda não repararam que pôr do sol já acabou. E o Verão também.
No início do Verão, estava a passear por Lisboa com uma amiga. Era uma daquelas tardes agradáveis, soalheira mas sem ser insuportavelmente quente. Uma brisa agradável vinda do Tejo temperava a calma de sábado à tarde na Baixa Pombalina. E então ela disse:
“Estás a ver? Esta é a Lisboa que eu amo.”
Tive uma sensação de déjá vu. Era a segunda vez em menos de um ano que ouvia aquela frase. As mesmas palavras, também numa das ruas traçadas a régua e esquadro da Baixa, só que a brisa era vento húmido e frio de Dezembro. E soube que era um homem com sorte. Pela segunda vez alguém me mostrava, mais do que ruas e recantos da cidade em que eu nunca tinha reparado, a alma da própria cidade. Chamando-me a atenção para a maneira como as pessoas viviam, para a vista lindíssima que se obtinha se se descesse a colina por esta ou aquela travessa estreita, para a tal “luz especial” de que falava Wim Wenders quando filmou “Viagem a Lisboa” (“Lisbon Story”). Filme de 1994, ano já longínquo em que a capital portuguesa foi também capital europeia da cultura.
“Esta é a Lisboa que eu amo.” Foi assim que soube que tinha que escrever sobre Lisboa. Estava destinado.
Panoramica do Rossio e Elevador de Santa Justa
A maioria das pessoas que lá vivem ou trabalham nunca andaram no eléctrico 28, nem subiram o elevador de Santa Justa, nem deambularam sem destino por Alfama. Naquela tarde fiz isso tudo e não me arrependi.
Largo do Carmo com fonte e igreja do Carmo (Fonte: Wikipedia)
A tarde começou com uma visita ao Chiado. Rápida, porque aquele já era terreno bem conhecido e cartografado na minha memória. Subimos logo para o Carmo e visitamos a igreja onde morreram centenas de fiéis que foram à missa no trágico dia 1 de Novembro de 1755. Durante o Terramoto de Lisboa, grande parte do telhado caiu sobre eles. A nave principal da igreja permanece tal qual ficou após a catástrofe e pode ser visitada. Na parte da igreja onde o telhado resistiu, existe hoje um museu arqueológico sobre a Pré- História em Portugal. O espólio inclui duas múmias muito bem conservadas. Muito interessante, para quem não for facilmente impressionável.
Ruínas do Carmo
Esta igreja fazia parte do Convento do Carmo, mandado construir por D. Nuno Álvares Pereira em 1389. Dom Nuno, também conhecido como Santo Condestável, doou mais tarde todos os seus bens ao convento. Chegou mesmo a ingressar nele em 1423, depois de uma vida dedicada às artes militares. O homem que liderou o exército português na vitória de Aljubarrota ali viveu, em recolhimento, até ao fim dos seus dias. Curiosamente, morreu a 1 de Novembro de 1431.
O resto do edifício do convento foi transformado em quartel militar após o terramoto e foi aí que Marcelo Caetano se refugiou no dia 25 de Abril de 1974 com a família e alguns homens da sua confiança, apanhado de surpresa pelos acontecimentos. Ali viveu-se um dos momentos mais tensos da revolução, quando as tropas rebeldes chegaram para o prender e o encontraram entrincheirado no quartel defendido por uns poucos militares ainda fieis ao regime. O espírito apaziguador e o sangue frio de um oficial desconhecido e idealista evitaram males maiores. Foi o capitão Salgueiro Maia que negociou a rendição do senhor Presidente do Conselho e posterior partida para o exílio no Brasil.
Vista do Elevador de Santa Justa
Dali subimos ao elevador de Santa Justa, mesmo ao lado, e deleitamo-nos com a paisagem. No fim daquela tarde trouxe muitas fotografias na máquina, mas muitas mais na memória. Lisboa tem mesmo uma luminosidade especial. Salvaguardadas as devidas proporções, acho que compreendo um bocadinho o Wim Wenders. E há tantos recantos de onde é possível descobrir um novo olhar, uma nova perspectiva sobre o belíssimo casario com o enorme espelho de água do Tejo lá ao fundo. O facto da cidade estar construída sobre colinas favorece a existência de miradouros e recomendo a visita a todos eles.
Eléctrico 28 no Largo da Graça
Muitos deles ficam perto do percurso do eléctrico nº 28, incluindo o miradouro da Graça. Existe lá uma esplanada muito agradável, onde vi o pôr-do-sol ao som de jazz, acompanhado por um Martini. Erro crasso, eu sei, devia ter escolhido algo mais adequado, porventura uma ginginha…
Miradouro da Graça
De dentro do 28, vi também a Sé Catedral…
Sé Catedral de Lisboa
…a Assembleia da República…
Assembleia da República Portuguesa
…e ruas sem nada de especial, a não ser estarem cheias de vida. E a campaínha do 28 ouvia-se enquanto ele furava pelo bulício das ruas, às vezes passando tão rente às paredes das casas que até parecia que lhes ia tirar um pedaço.
Mas o danado do 28 não foi até ao destino. Na viagem de regresso, ficou a meio caminho. “O das 19h não vai até ao Martim Moniz”, esclareceu o guarda-freios. Tudo bem, da próxima vez consulto o horário. Tivemos que dar corda aos sapatos, esperavam-nos para jantar no Bairro Alto. E tive o privilégio de descer Alfama durante o pôr-do-sol. Abençoado eléctrico das 19h.
Lá chegamos ao Martim Moniz para, pasme-se, dar de caras com um arraialzinho. Era noite de S. João. Uma banda tocava as modinhas do costume para uma pequena plateia multi-étnica. Os remorsos por não estar no Porto fizeram-me alinhar no bailarico. Há sempre tempo para um pézinho de dança, e no Bairro Alto tiveram que esperar por nós mais um quarto de hora. Fomos felicitados em Português do Brasil pela nossa vivacidade no baile. Entrei no elevador da Glória ao telefone com o S. João do Porto, na pessoa do meu tio, que me recriminava pela minha ausência. E finalmente, já noite cerrada, cheguei ao restaurantezinho no Bairro Alto. Tinham começado sem nós. Bem feita.
Feitas as contas, valeu a pena ficar em Lisboa no S. João. Muito obrigado a todas as pessoas que me ensinaram a amar esta cidade!
É já noite cerrada. As ruas estão desertas. Uma aragem fria e desagradável agita as copas das árvores, apesar de ser Primavera. Três silhuetas curvadas atravessam a larga avenida, logo depois de passar um eléctrico quase vazio. Os tentáculos do lobby do petróleo não chegaram à Alemanha comunista, e por isso os característicos eléctricos brancos continuam a andar por toda a Berlim-leste. Os três estranhos (obviamente não são da cidade) param no cruzamento junto à grande ponte de ferro e trocam algumas palavras, como que a decidir para onde ir. Acabam por não a cruzar. Viram à direita, seguindo o eléctrico que se vê ainda ao fundo da rua. Passados cinco minutos, entram dois homens e uma mulher num pacato hotel da Grunauer Strasse. O recepcionista não parece surpreso com a tardia hora de chegada e, após breve troca de palavras, dá-lhes as respectivas chaves. Ele não sabe, mas o espião acabou de chegar ao seu destino.
E pronto. Aproveitei a minha primeira estadia em território da antiga RDA para fazer uma introdução à John le Carré. A minha missão de espionagem em Berlim durou uma semana e foi bastante frutífera. Descobri pedacinhos de paraíso como este.
Pormenor do “Tiergarten” – “Jardim dos Animais”
Foi uma boa escolha, visitar Berlim na Primavera. Havia flores lindíssimas em todos os parques e jardins que visitei, quase todos tratados com um cuidado que roçava o perfeccionismo. E em quase todos os jardins, arte.
Estátua num parque em Köpenick, Berlim-Leste
A cidade espraia-se por uma ampla planície polvilhada de lagos e tem-se a impressão que cada lago deu origem a um jardim, o que torna Berlim uma das cidades mais verdes que já vi.
No que diz respeito ao urbanismo, é exemplar com as suas avenidas largas e arborizadas, transportes públicos eficientes, passeios grandes e ciclovias por todo o lado.
Berlim ao pôr-do-sol
Para este urbanismo exemplar “contribuíram” em grande medida os Aliados na 2ª Guerra Mundial, arrasando grande parte da cidade, incluindo monumentos históricos.
Gedächniskirsche – “Igreja da Memória”, semi-destruída desde 1945
Quando o Exército Vermelho tomou a cidade em 1945, havia muito poucos edifícios de pé. Morreram muitos milhares de civis inocentes nos bombardeamentos e na conquista de Berlim. A propósito, aproveito para recomendar um filme excelente passado em Berlim. “A Queda”.
Ainda se nota a diferença ao entrar em Berlim-Leste. Os edifícios enormes em forma de paralelepípedo eram a regra, no tempo do comunismo e da economia planificada. Construíam-se bairros planeados de forma a haver uma densidade populacional pré-determinada, assim como um número pré-determinado de centros de saúde, infantários, lojas e cafés por cada 1000 habitantes. Agora é o mercado a ditar a maior parte desses rácios, mas a herança ficou. Não se julgue, no entanto, que estes bairros são maus sítios para viver, pelo contrário. Se não acreditam, vejam.
Pormenor de um bairro característico de Berlim Leste
E já que estou numa de recomendar filmes, deixo aqui uma amostra de outro filme excelente cuja acção decorre em Berlim, “A Vida dos Outros”. Trata da relação curiosa que se desenvolve entre um inspector da Stasi (a polícia política da antiga Alemanha de Leste) e um casal de artistas que ele vigia. Pode parecer que não, mas é uma história bonita.
Dediquei alguns dias a passear pelos arredores. Abaixo, vista do “Schloss Charlottenburg”, mandado construir pelo 1º Imperador da Prússia, Frederico I, para a sua rainha Charlotte passar os Verões.
No início do séc. XVIII, a Alemanha não existia. Em seu lugar havia um mosaico de pequeninos reinos, principados e cidades-estado mercantis. Frederico ascendeu de Príncipe-eleitor de Berlim-Brandenburgo a Imperador da Prússia. Fê-lo da maneira tradicional à época, isto é, varrendo alguns principados vizinhos a golpes de espada e tiros de mosquete, e depois ameaçando outros que os varreria da mesma forma caso não se “aliassem” a ele no desígnio de fundar um império. A diplomacia é uma coisa muito bonita, e vários príncipes concordaram em apoiá-lo. Charlotte tornou-se assim na primeira Imperatriz da Prússia, com palácio e jardins a condizer com o título, bem entendido.
Jardim e traseiras do Palácio de Charlottenburg
O Imperador podia ser duro nas “negociações” diplomáticas, mas a sua virtuosa e adorada esposa conseguia tudo o que queria dele. A prova está neste canal de uns 10 km que mandou construir desde o centro de Berlim até Charlottenburg, depois dela se queixar do incómodo que era viajar de carruagem entre a cidade e o palácio. Vida boa…
O canal de Charlotte, Charlottenburg, Berlim
Por falar em canais, refira-se que eles nos aparecem em Berlim atrás de cada esquina. Ao contrário dos de Veneza, estes foram quase todos construídos pelo Homem. O que só lhes acrescenta valor, embora a maioria não tenha uma história glamorosa de princesas e imperadores na sua origem. Nem gondoleiros cantantes em barcos típicos. Felizmente, digo eu. Todos eles são alimentados pelo rio Spree e são cruzados todos os dias por dezenas de barcos de recreio e de mercadorias.
Vista do rio Spree, Köpenick, Berlim-Leste
Precisamente no meio do Spree fica a “Museumsinsel” (Ilha dos Museus), paragem obrigatória para qualquer amante de arte. Já não me lembro em qual dos museus da ilha vi esta escultura representando Pã, o deus com pés de cabra conhecido por ser flautista e devasso, tentando seduzir uma inocente ninfa dos bosques. Em miúdo tinha uma predilecção por pã (aprendi muito cedo a tocar flauta transversal) que não era muito apreciada pela minha catequista. Só mais tarde é que vim a perceber porquê.
Pã conforta Psique, Bodemuseum
A cidade tem museus belíssimos dentro e fora da ilha e quase todos merecem uma visita. Além dos da Museumsinsel, recomendo o Museu de Artes e Ofícios (“Kunstgewerbe Museum”), a Nova Galeria Nacional (“Neue Nationalgalerie”) e os museus dos palácios: Schloss Charlottenburg, Schloss Köpenick e Schloss Sanssouci, este último em Potsdam. As pedrinhas azuis nestas jóias são safiras.
Gargantilha e pente por René Lalique, Kunsgewerbe Museum, Berlim
Estátua frente à Neue Nationalgalerie, na antiga Berlim-Oeste
Tive tempo para ver todos os monumentos famosos, incluindo os mais feios. Parece que este edifício ganhou não sei quantos prémios de arquitectura. Não percebo porquê…
Edifício-sede da Orquestra Nacional de Berlim, construído nos anos 60
Ainda tive tempo para ir à belíssima Potsdam, a meia hora de distância de “S-Bahn” (comboio-metro suburbano) de Berlim. Lá, maravilhei-me com mais palácios no “Parc Sanssouci” (francês para “sem preocupações”), onde o Imperador Frederico o Grande (neto do outro Frederico) descansava dos assuntos de estado. O facto de chamar “império” à Prússia, um reino bastante mais pequeno do que a França, revela o quanto os descendentes de Charlotte de Saxe-Coburgo se levavam a sério. Num acesso de novo-riquismo típico dos jovens impérios, construiu um complexo de palácios monumentais.
Schloss Sanssouci (quadro de 1900)
Os palácios estavam separados (ou ligados…) por enormes e bucólicos jardins, com arte a cada curva do caminho.
Pormenor do Parc Sanssouci, Potsdam
Este Frederico era um homem enérgico e voluntarioso. Tornou a Prússia numa potência europeia, usando métodos mais modernos que o avô, embora não muito diferentes. Varreu os principados vizinhos a tiros de fuzil e golpes de baioneta. No entanto, era um homem de grande sensibilidade artística e continuou a tradição de mecenato que já vinha do tempo da sua avó. Além disso, preferia a música à caça. Era um flautista exímio, tendo composto várias sonatas que ainda hoje são tocadas. Fez-se pintar dando um recital de flauta transversal para a corte.
Os jardins foram sendo modificados ao longo do tempo, ao gosto dos ocupantes. Construíram-se alamedas para passear entre as estufas, lagos, casas de férias, uma capela e até umas termas ao estilo romano.
Parc Sanssouci - Vista do lago, das Termas Romanas
Uma das princesas tinha uma predilecção especial pela China, e daí resultou esta casa de chá.
Chinesisches Haus, Parc Sanssouci, Potsdam
Termino com uma curiosidade. Em Berlim vi muito poucos pombos, que costumam ser uma praga nas cidades. Será do clima? A fauna mais abundante, para além dos humanos, eram os corvos. Estavam em todo o lado, e também em Sanssouci.
O corvo não faz parte da estátua...
E além dos corvos, os patos. Em todos os parques havia um lago e em todos os lagos havia patos. Muito grasnadores e simpáticos, desde que lhes dessem umas migalhas. Este casal até saiu do lago, a pedi-las ruidosamente.
À espera das migalhas...
E pronto. Missão cumprida. Regressei, qual OO7, para dar conta a Sua Majestade das informações recolhidas…
Não é só em Portugal que se discutem aeroportos. Uma das polémicas na ordem do dia em Berlim até à semana passada era sobre o aeroporto de Tempelhof, construído em característica arquitectura do Terceiro Reich e que hoje se situa quase no centro da cidade. Tem uma carga sentimental grande para os Berlinenses pelo papel que desempenhou nas várias pontes aéreas dos Aliados da Europa Ocidental para Berlim-Oeste no tempo da Guerra Fria e dos vários bloqueios terrestres impostos àquela metade da cidade pelos soviéticos, que foi uma “ilha” dentro do bloco comunista desde 1948 até 1989.
A seta (não o “x” ) assinala o aeroporto, no sector aliado, bem dentro da zona urbana. Passados esses tempos conturbados, a questão era a seguinte: Ou desmantelar o aeroporto para “entregar o espaço à cidade”, ou remodelar o aeroporto para o tornar num “aeroporto de negócios” para VIP’s e gestores de topo poderem aterrar no centro urbano (tempo é dinheiro). Até houve um referendo regional sobre o assunto há mais ou menos uns dez dias. Com direito a campanha eleitoral, debates na televisão, dossiers nos jornais, cartazes nas ruas e essas coisas todas. Neste um trabalhador diz, em característico dialecto berlinense, “Eu cá não pago por um aeroporto VIP!”.
Este outro apela ao sentimento, ao utilizar a famosa afirmação do presidente Kennedy, quando visitou Berlim-Oeste em pleno bloqueio terrestre soviético: “Eu sou um berlinense!”
Ou, dada a maneira curiosa como JFK pronunciou a frase, “Eu sou um donut!”, he, he. Acabou por ganhar o “sim” à manutenção do aeroporto. Curiosamente, o referendo revelou que ainda existem duas cidades. O “sim” perdeu em todos os distritos da antiga Berlim-Leste, mas teve uma votação esmagadora no antigo sector ocidental.
É isto a democracia participativa. Quando há decisões importantes a tomar, põe-se as cartas em cima da mesa, discute-se entre todos e decide-se.
Será que em Portugal alguém se vai lembrar de pedir um referendo regional para decidir o que vai ser do aeroporto da Portela quando o novo estiver construído? Temo que não, e tenho pena. Durante a novela da decisão sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa, uma das poucas vozes lúcidas que ouvi falava sobre a possibilidade de manter o aeroporto da Portela. Não como aeroporto principal, a tal ridícula opção “Portela +1″ que só adiava o inevitável, mas como aeroporto de negócios à semelhança do que os berlinenses discutiram para Tempelhof. Outra opção seria criar uma grande zona verde, à semelhança do Hyde Park de Londres. Fazem falta zonas verdes na Grande Lisboa, como toda a gente sabe. Ou então entregar toda aquela zona à especulação imobiliária e deixar o mercado funcionar, sei lá. Mas os lisboetas deviam ter uma palavra a dizer sobre o destino do seu velhinho aeroporto. Referendo já!
O meu pai é um excelente farejador de promoções. Consegue um notável rácio qualidade-preço sempre que vai ao supermercado e, por isso, tem sido ele a tratar das compras lá de casa desde que me lembro. Mas no que toca a viagens, tem muito que aprender.
Nunca imaginei que uma viagem Porto-Berlim pudesse durar quase um dia inteiro, incluindo um pousio de cinco horas em Madrid. Fiquei a conhecer aquele terminal de aeroporto como a palma da minha mão, incluindo todas as lojas, tabacarias, restaurantes, WC’s, escadas rolantes e corredores de serviço. E ainda me sobrou tempo para ler dois álbuns de BD e imprensa diversa, em castelhano e em português. Obrigado, Pai. Obrigado, gentil menina da agência de viagens, que oportunamente lhe indicou aquele fabuloso voo em promoção da Ibéria. No qual, a propósito, nem uma garrafinha de água era oferecida e os famintos viajantes tinham que desembolsar mais de cinco euros por uma mísera sandes. Será que os espanhóis venderam a sua companhia de bandeira à Ryan Air ou à Virgin? Tenho que investigar isso. Passados uns dias viajei pela Easyjet. A hospedeira ficou espantada com a exuberante alegria que demonstrei quando me disse que o sumo de laranja era grátis…
Segunda bagatela descoberta pelo meu pai graças à solícita menina da agência de viagens: Um hotel de quatro estrelas a um preço excepcional! A sua localização pouco central seria compensada pelo facto de ficar “a apenas dez minutos do aeroporto”, lia-se no prospecto. Mas eu, desconfiado, fui verificar. Cinco minutos no Google Earth bastaram para descobrir que há dois aeroportos principais em Berlim e que nós, no dia seguinte, íamos aterrar no “errado”, não no tal que estava a dez minutos do hotel…
Lado positivo: Depois de aterrar, tive oportunidade de treinar o meu alemão enquanto discutia com os funcionários dos transportes públicos de Berlim qual o tipo de bilhete mais indicado para turistas e quais as linhas de autocarro, metro e/ou comboio suburbano a tomar para galgar os quase quarenta quilómetros que me separavam da cama, da mesa e da roupa lavada. Saí-me surpreendentemente bem. Até servi de intérprete entre duas italianas e um alemão que tentava, sem sucesso, dar-lhes direcções.
Acabei por entrar no hotel com um sorriso nos lábios. Afinal falo alemão melhor do que pensava (embora ainda não tão bem como gostaria) e, no fim das contas, o hotel era bom. Situado na beira do rio Spree (que atravessa Berlim), bons quartos, esplanada com vista para um bonito palácio na outra margem, terraço, empregados educados e simpáticos. A aventura teve um final feliz.
Obrigado, pai. Obrigado, gentil menina da agência de viagens.
Um dos meus desportos preferidos é ir visitar os amigos. Especialmente quando estão emigrados em sítios interessantes. Só tive uma pequena amostra do que é a saudade do nosso jardim à beira-mar plantado quando estive um mês afastado na Alemanha e, na última semana, até do Toni Carreira sentia falta. Portanto, toda a gente fica a ganhar. Eles, porque lhes levo um bocadinho de casa. Eu, porque tenho o melhor guia turístico que se pode querer. Alguém que conhece a cidade ou a região em causa e que, mais do que debitar factos históricos ou curiosidades de pacotilha, me põe a par da sua vivência naquele lugar com aquelas pessoas. Como quem acrescenta uma banda sonora a um filme.
Fez na semana passada mais ou menos dois anos que regressei de praticar o meu desporto favorito num arquipélago árido perdido no Atlântico, ao largo do Senegal. Mais precisamente, na ilha de S. Vicente, cidade do Mindelo, capital cultural de Cabo Verde. Fui visitar a Anita.
Há quem diga que a Anita tem “um feitio muito próprio”. São opiniões. Na verdade, essa afirmação é um eufemismo para “tem uma língua viperina, é politicamente incorrecta e tem ocasionais explosões de mau génio”. Mas é uma amiga fiel e é assim que nós, os amigos, gostamos dela. E é mulher de coragem, não é qualquer pessoa que emigra para África de um dia para o outro, sem qualquer apoio exterior. Mas ainda bem que foi. Proporcionou-me o primeiro contacto com a África que fala português.
Uma África quente, acolhedora e sempre alegre, apesar das dificuldades. Encontrei um povo tão gentil que por vezes até me senti constrangido. Como quando eu estava de pé no autocarro e um senhor, que quase tinha idade para ser meu pai, se levantou e me ofereceu o lugar. E depois de eu o recusar dez vezes, e ele o tornar a oferecer outras dez, tive mesmo que sentar-me. Os cabo-verdeanos chamam “morabeza” a esta atenção, esta deferência para com aqueles que visitam as ilhas. Já de pé, o senhor explicou-me que na Praia, a capital política do país, as pessoas são “mal-educadas”, razão pela qual a “morabeza” se estaria a perder por lá. Sorri. Também ali havia rivalidades entre ilhéus, como nos Açores há entre os da Terceira e os de S. Miguel.
Na perspectiva da Anita, a morabeza era apenas a maneira peculiar de os cabo-verdeanos serem chatos. E quanto a educação, “são todos iguais, eu é que sei os assobios e os piropos que aturo, o que vale é que são em crioulo e não percebo”. Mas aposto que até os piropos eram inocentes, do tipo “bô é b’nite” – a primeira coisa que aprendi dizer em crioulo, “és linda”. Podia ser útil. Por exemplo no caso de eu encontrar a Mayra Andrade por lá.
Algo que me impressionou no país foi a evidente aposta na educação da sua imensa juventude (mais de metade da população tem menos de 30 anos). As estatísticas de alfabetização são quase de nível europeu. Há imensos ciber-cafés no Mindelo, sempre muito frequentados, e até nos cantos mais recônditos da ilha encontrei escolas sempre cheias de miúdos. Curiosidade: todas as escolas têm código de vestuário.
A estes três, dei-lhes boleia para a escola num Opel Astra alugado, em troca de direcções. Para eles foi uma festa. Nesse dia, atravessei a ilha para ir até à vila do Calhau. Pelo caminho, fiz uma imagem que é uma metáfora daquela ilha, ou de todo aquele país.
Uma casinha muito bonita, impecavelmente pintada e murada no sopé de um monte inóspito. Assim é o arquipélago. O viajante que vê do avião aquelas pequenas ilhas, escuras do basalto vulcânico, montanhosas e áridas, pergunta-se como é possível morar nelas e viver do pouco que elas dão. E a resposta é: Com muito trabalho, sacrifício e organização. A necessidade aguça o engenho, como dizia o poeta. Por exemplo, aproveitam todos os metros quadrados de terra arável dos leitos das ribeiras, secas a maior parte do ano. Abaixo, a ribeira do Calhau, uma das poucas manchas verdes da ilha.
A escassez de terra arável e de pastagens leva a que a carne de vaca seja um luxo (e, geralmente, de má qualidade, dura como sola de sapato ). O único gado que vi foram algumas cabras que saltitavam naqueles montes despidos comendo a pouca vegetação espinhosa que surgia aqui e ali, por entre as pedras. Em compensação, o peixe é abundante e muito bom. O Atlântico ainda é generoso, naquelas paragens. Durante a minha estadia em S. Vicente, poucas coisas me deram mais prazer do que comer peixe-espada, cherne ou atum fresco numa qualquer esplanada, mirando o mar em boa companhia.
E pronto. Como esta viagem teve tanto para contar, vai ter direito a dupla entrada cá no blogue. Na próxima semana há mais.
Já que ando a falar sobre música, aproveito para um pouco de intervenção política. Soube que o Ministério da Educação vai remodelar o ensino artístico, preconizando, entre outras coisas, o fim do regime supletivo de ensino musical. Foi este o regime que eu frequentei. Depois das aulas da escola, ia para a Academia de Música de Espinho aprender tudo o que sei sobre música. No Ciclo Preparatório tive uma disciplina de “Educação Musical”, umas aulas onde os meninos cantavam “As Pombinhas da Cat’rina” e batiam palmas.
Se esta remodelação for avante, nenhum miúdo poderá ter um percurso igual ao meu. Ou envereda pelo ensino artístico e aprende música (com aulas de violino ou formação musical em vez de Geografia ou História, por exemplo),
ou então envereda por outro tipo de ensino e não aprende música (excepto “As Pombinhas da Cat’rina” com palmas ritmadas). Já existe uma petição online a pedir a suspensão e reavaliação desta reforma. Quem quiser pode assinar aqui.
Pois é. Imperdoável. Um tipo que cria um blogue e depois não escreve nada durante um mês devia ser expulso aqui da WordPress. A mim, só me ocorre aquela defesa gasta, mas verdadeira, do “tive muito que fazer”. E a conjugação astral também teve parte das culpas.
Eu explico: como eventualmente é sabido, a Páscoa celebra-se no primeiro Domingo após a primeira Lua cheia da Primavera. Não sei o que é que os judeus estavam a pensar quando fugiram do Egipto numa altura dessas, qualquer prisioneiro sabe que essas noites não são propícias a fugas. Mas adiante. Este ano, há uma Lua cheia logo a seguir ao equinócio, o que faz com que a Páscoa seja muito cedo. E isso, agora que sou menino de coro, dá-me bastante mais que fazer…
Sim, menino do Coro dos Amigos da Academia de Música de Espinho e ainda por cima tenor, um dos tais que cantam mais fininho.
Este ano andamos a dedicar-nos à música sacra. Temos que preparar o belíssimo “Gloria”(RV589) de Vivaldi até à Páscoa. Para quem não conhece (e para quem conhece também), deixo aqui o início. Dois minutos e trinta e dois segundos para dizer “Glória a Deus nas alturas”.
Se todas as missas fossem assim as igrejas andavam sempre cheias. A alegria e a leveza na composição de António Vivaldi são notáveis. Dizem as más línguas que teria também uma notável alegria de viver, cultivando relações pouco consentâneas com o seu estatuto de padre.
Foi até escrito um panfleto contra ele, acusando-o de adaptar óperas venezianas às capacidades vocais da sua amante mais famosa, a cantora Anna Giraud. Mas no fim das contas, estou convencido que ele teve o seu lugar no paraíso. Se fosse eu a decidir, teria. Só estes três minutos e meio compensam a meia dúzia de facadinhas no seu matrimónio com o Altíssimo…
“Só Tu és santo, só Tu és o Senhor, Jesus Cristo, juntamente com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai.” – quantas vezes, na minha infância, quase adormeci enquanto pronunciava estas palavras na santa Eucaristia. E não tinha que as dizer em latim. Mas a música transforma por completo a experiência de as ouvir e de as dizer. Estes senhores cantam quase tão bem como o Coro dos Amigos da Academia de Música de Espinho. Não acreditam? Venham a Espinho na Páscoa!
Uma das coisas mais reconfortantes na vida (pelo menos para nós, os egocêntricos) é a nossa tendência para acreditarmos que a vivemos melhor do que os outros. Mesmo que manifestamente não seja esse o caso. Deve ser daí que vêm mitos como o de que “o dinheiro não traz felicidade” ou que a fama, além de só durar quinze minutos, destrói a vida privada de quem a tem. Mas estes mitos, apesar de serem um pouco imbecis, são o que separa uma massa imensa de gente remediada e anónima da depressão profunda, he, he. Não os subestimemos, portanto.
Outro exemplo é o dos adolescentes. O que impede muitos deles de enlouquecer com as mudanças hormonais e vivenciais que experimentam é a certeza inabalável de que a sua vida seria idílica (e todo o mundo também, por arrasto) se os deixassem fazer o que querem. O mundo (retrógrado e irremediavelmente doente) é que não os deixa. Pessoalmente, acho que todas as decisões importantes da vida de alguém deviam ser tomadas antes dos 18, enquanto ainda se sabe tudo. Ou, pelo menos, tudo o que interessa
Lamentavelmente, essa omnisciência tende a desaparecer com a idade do indivíduo (idade mental, bem entendido, há quem não chegue nunca à idade adulta ), até eventualmente chegar ao estádio do outro respeitável senhor que só sabia que não sabia nada…
Nestes meandros do valor do conhecimento, do auto-conhecimento e das nossas relações com os outros, há coisas que nunca deviam mudar. Como os contos de fadas. Cinderela e Capuchinho Vermelho, boas. Bruxa e lobo, maus. Caubói, bom. Índio, mau. Padeira de Aljubarrota, boa. Meia-dúzia de soldados castelhanos, maus. Simples, como as pessoas gostam.
Mas hoje em dia, o herói de contos de fadas mais famoso é um ogre verde, parolo e flatulento chamado Shreck. Os índios afinal foram vítimas de uma guerra de extermínio pela mesma cavalaria que aparecia sempre nos westerns a salvar o herói e a donzela em apuros. E a padeira de Aljubarrota, se vivesse no século XXI, estaria a ser julgada por crimes de guerra. Nestes tempos de relativismo moral, nem o baluarte da boa e velha dicotomia “Bem/Mal” que é a Terra Média de Tolkien escapa. Não é que alguém teve a ideia de escrever a versão “orc” da célebre epopeia do hobbit Frodo e companhia?
Mais. Atreveu-se a descrever a Guerra do Anel como uma guerra de extermínio da “civilização orc, amante do progresso e das ciências” por parte de uma coligação conservadora e obscurantista de Elfos, Magos e Homens (estes últimos parceiros subalternos). Nem o amor imortal entre Arwen (princesa dos elfos) e Aragorn (pretendente a um trono dos Homens) escapa nesta nova (e vil) versão da história. Heresia!
Ora bem, agora a sério. Este Yeskov colocou a fasquia bem alta quando teve a ousadia de contradizer um autor como Tolkien. Mas safou-se bem. Teve a inteligência, a sagacidade e o talento para fazer algo mais do que uma simples sequela d’ “O Senhor dos Aneis”. Já fez melhor do que os descendentes do nosso saudoso Tolkien, que só sabem andar à procura de qualquer sarrabisco que ele tenha deixado perdido numa gaveta para o publicar imediatamente…