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É já noite cerrada. As ruas estão desertas. Uma aragem fria e desagradável agita as copas das árvores, apesar de ser Primavera. Três silhuetas curvadas atravessam a larga avenida, logo depois de passar um eléctrico quase vazio. Os tentáculos do lobby do petróleo não chegaram à Alemanha comunista, e por isso os característicos eléctricos brancos continuam a andar por toda a Berlim-leste. Os três estranhos (obviamente não são da cidade) param no cruzamento junto à grande ponte de ferro e trocam algumas palavras, como que a decidir para onde ir. Acabam por não a cruzar. Viram à direita, seguindo o eléctrico que se vê ainda ao fundo da rua. Passados cinco minutos, entram dois homens e uma mulher num pacato hotel da Grunauer Strasse. O recepcionista não parece surpreso com a tardia hora de chegada e, após breve troca de palavras, dá-lhes as respectivas chaves. Ele não sabe, mas o espião acabou de chegar ao seu destino.

E pronto. Aproveitei a minha primeira estadia em território da antiga RDA para fazer uma introdução à John le Carré. A minha missão de espionagem em Berlim durou uma semana e foi bastante frutífera. ;) Descobri pedacinhos de paraíso como este.

Pormenor do “Tiergarten” - “Jardim dos Animais”

Foi uma boa escolha, visitar Berlim na Primavera. Havia flores lindíssimas em todos os parques e jardins que visitei, quase todos tratados com um cuidado que roçava o perfeccionismo. E em quase todos os jardins, arte.

Estátua num parque em Köpenick, Berlim-Leste

A cidade espraia-se por uma ampla planície polvilhada de lagos e tem-se a impressão que cada lago deu origem a um jardim, o que torna Berlim uma das cidades mais verdes que já vi.

No que diz respeito ao urbanismo, é exemplar com as suas avenidas largas e arborizadas, transportes públicos eficientes, passeios grandes e ciclovias por todo o lado.

Berlim no pôr-do-sol
Berlim ao pôr-do-sol

Para este urbanismo exemplar “contribuíram” em grande medida os Aliados na 2ª Guerra Mundial, arrasando grande parte da cidade, incluindo monumentos históricos.

Gedächniskirsche (\
Gedächniskirsche - “Igreja da Memória”, semi-destruída desde 1945

Quando o Exército Vermelho tomou a cidade em 1945, havia muito poucos edifícios de pé. Morreram muitos milhares de civis inocentes nos bombardeamentos e na conquista de Berlim. A propósito, aproveito para recomendar um filme excelente passado em Berlim. “A Queda”.

Ainda se nota a diferença ao entrar em Berlim-Leste. Os edifícios enormes em forma de paralelepípedo eram a regra, no tempo do comunismo e da economia planificada. Construíam-se bairros planeados de forma a haver uma densidade populacional pré-determinada, assim como um número pré-determinado de centros de saúde, infantários, lojas e cafés por cada 1000 habitantes. Agora é o mercado a ditar a maior parte desses rácios, mas a herança ficou. Não se julgue, no entanto, que estes bairros são maus sítios para viver, pelo contrário. Se não acreditam, vejam.

Bairro de Berlim Leste
Pormenor de um bairro característico de Berlim Leste
E já que estou numa de recomendar filmes, deixo aqui uma amostra de outro filme excelente cuja acção decorre em Berlim, “A Vida dos Outros”. Trata da relação curiosa que se desenvolve entre um inspector da Stasi (a polícia política da antiga Alemanha de Leste) e um casal de artistas que ele vigia. Pode parecer que não, mas é uma história bonita. ;)

Dediquei alguns dias a passear pelos arredores. Abaixo, vista do “Schloss Charlottenburg”, mandado construir pelo 1º Imperador da Prússia, Frederico I, para a sua rainha Charlotte passar os Verões.

No início do séc. XVIII, a Alemanha não existia. Em seu lugar havia um mosaico de pequeninos reinos, principados e cidades-estado mercantis. Frederico ascendeu de Príncipe-eleitor de Berlim-Brandenburgo a Imperador da Prússia. Fê-lo da maneira tradicional à época, isto é, varrendo alguns principados vizinhos a golpes de espada e tiros de mosquete, e depois ameaçando outros que os varreria da mesma forma caso não se “aliassem” a ele no desígnio de fundar um império. A diplomacia é uma coisa muito bonita, e vários príncipes concordaram em apoiá-lo. Charlotte tornou-se assim na primeira Imperatriz da Prússia, com palácio e jardins a condizer com o título, bem entendido.

Jardim e traseiras do Palácio de Charlottenburg

O Imperador podia ser duro nas “negociações” diplomáticas, mas a sua virtuosa e adorada esposa conseguia tudo o que queria dele. A prova está neste canal de uns 10 km que mandou construir desde o centro de Berlim até Charlottenburg, depois dela se queixar do incómodo que era viajar de carruagem entre a cidade e o palácio. Vida boa… :)

O canal de Charlotte, Charlottenburg, Berlim

Por falar em canais, refira-se que eles nos aparecem em Berlim atrás de cada esquina. Ao contrário dos de Veneza, estes foram quase todos construídos pelo Homem. O que só lhes acrescenta valor, embora a maioria não tenha uma história glamorosa de princesas e imperadores na sua origem. Nem gondoleiros cantantes em barcos típicos. Felizmente, digo eu. :D Todos eles são alimentados pelo rio Spree e são cruzados todos os dias por dezenas de barcos de recreio e de mercadorias.

Vista do rio Spree, Köpenick, Berlim-Leste

Precisamente no meio do Spree fica a “Museumsinsel” (Ilha dos Museus), paragem obrigatória para qualquer amante de arte. Já não me lembro em qual dos museus da ilha vi esta escultura representando Pã, o deus com pés de cabra conhecido por ser flautista e devasso, tentando seduzir uma inocente ninfa dos bosques. Em miúdo tinha uma predilecção por pã (aprendi muito cedo a tocar flauta transversal) que não era muito apreciada pela minha catequista. Só mais tarde é que vim a perceber porquê. :D

Pã conforta Psique

A cidade tem museus belíssimos dentro e fora da ilha e quase todos merecem uma visita. Além dos da Museumsinsel, recomendo o Museu de Artes e Ofícios (”Kunstgewerbe Museum”), a Nova Galeria Nacional (”Neue Nationalgalerie”) e os museus dos palácios: Schloss Charlottenburg, Schloss Köpenick e Schloss Sanssouci, este último em Potsdam. As pedrinhas azuis nestas jóias são safiras.

Gargantilha e pente por René Lalique, Kunsgewerbe Museum, Berlim
Estátua frente à Neue Nationalgalerie na antiga Berlim-Leste
Estátua frente à Neue Nationalgalerie, na antiga Berlim-Leste

Tive tempo para ver todos os monumentos famosos, incluindo os mais feios. Parece que este edifício ganhou não sei quantos prémios de arquitectura. Não percebo porquê… :P

Edifício-sede da Orquestra Nacional de Berlim, construído nos anos 70

Ainda tive tempo para ir à belíssima Potsdam, a meia hora de distância de “S-Bahn” (comboio-metro suburbano) de Berlim. Lá, maravilhei-me com mais palácios no “Parc Sanssouci” (francês para “sem preocupações”), onde o Imperador Frederico o Grande (neto do outro Frederico) descansava dos assuntos de estado. O facto de chamar “império” à Prússia, um reino bastante mais pequeno do que a França, revela o quanto os descendentes de Charlotte de Saxe-Coburgo se levavam a sério. Num acesso de novo-riquismo típico dos jovens impérios, construiu um complexo de palácios monumentais.

Um dos palácios num quadro de 1900
Schloss Sanssouci (quadro de 1900)

Os palácios estavam separados (ou ligados…) por enormes e bucólicos jardins, com arte a cada curva do caminho.

Pormenor do Parc Sanssouci, Potsdam

Este Frederico era um homem enérgico e voluntarioso. Tornou a Prússia numa potência europeia, usando métodos mais modernos que o avô, embora não muito diferentes. Varreu os principados vizinhos a tiros de fuzil e golpes de baioneta. :D No entanto, era um homem de grande sensibilidade artística e continuou a tradição de mecenato que já vinha do tempo da sua avó. Além disso, preferia a música à caça. Era um flautista exímio, tendo composto várias sonatas que ainda hoje são tocadas. Fez-se pintar dando um recital de flauta transversal para a corte.

Friedrich der Grosse, der Flöte Spieler

Os jardins foram sendo modificados ao longo do tempo, ao gosto dos ocupantes. Construíram-se alamedas para passear entre as estufas, lagos, casas de férias, uma capela e até umas termas ao estilo romano.

Parc Sanssouci - Vista do lago, das Termas Romanas
Parc Sanssouci - Vista do lago, das Termas Romanas

Uma das princesas tinha uma predilecção especial pela China, e daí resultou esta casa de chá.

Chinesisches Haus, Parc Sanssouci, Potsdam
Chinesisches Haus, Parc Sanssouci, Potsdam

Termino com uma curiosidade. Em Berlim vi muito poucos pombos, que costumam ser uma praga nas cidades. Será do clima? A fauna mais abundante, para além dos humanos, eram os corvos. Estavam em todo o lado, e também em Sanssouci.

O corvo não faz parte da estátua...
O corvo não faz parte da estátua...

E além dos corvos, os patos. Em todos os parques havia um lago e em todos os lagos havia patos. Muito grasnadores e simpáticos, desde que lhes dessem umas migalhas. Este casal até saiu do lago, a pedi-las ruidosamente. :)

À espera de migalhas...
À espera das migalhas...

E pronto. Missão cumprida. Regressei, qual OO7, para dar conta a Sua Majestade das informações recolhidas…

Referendos

Não é só em Portugal que se discutem aeroportos. Uma das polémicas na ordem do dia em Berlim até à semana passada era sobre o aeroporto de Tempelhof, construído em característica arquitectura do Terceiro Reich e que hoje se situa quase no centro da cidade. Tem uma carga sentimental grande para os Berlinenses pelo papel que desempenhou nas várias pontes aéreas dos Aliados da Europa Ocidental para Berlim-Oeste no tempo da Guerra Fria e dos vários bloqueios terrestres impostos àquela metade da cidade pelos soviéticos, que foi uma “ilha” dentro do bloco comunista desde 1948 até 1989.

A seta (não o “x” :) ) assinala o aeroporto, no sector aliado, bem dentro da zona urbana. Passados esses tempos conturbados, a questão era a seguinte: Ou desmantelar o aeroporto para “entregar o espaço à cidade”, ou remodelar o aeroporto para o tornar num “aeroporto de negócios” para VIP’s e gestores de topo poderem aterrar no centro urbano (tempo é dinheiro). Até houve um referendo regional sobre o assunto há mais ou menos uns dez dias. Com direito a campanha eleitoral, debates na televisão, dossiers nos jornais, cartazes nas ruas e essas coisas todas. Neste um trabalhador diz, em característico dialecto berlinense, “Eu cá não pago por um aeroporto VIP!”.

Este outro apela ao sentimento, ao utilizar a famosa afirmação do presidente Kennedy, quando visitou Berlim-Oeste em pleno bloqueio terrestre soviético: “Eu sou um berlinense!”

Ou, dada a maneira curiosa como JFK pronunciou a frase, “Eu sou um donut!”, he, he. Acabou por ganhar o “sim” à manutenção do aeroporto. Curiosamente, o referendo revelou que ainda existem duas cidades. O “sim” perdeu em todos os distritos da antiga Berlim-Leste, mas teve uma votação esmagadora no antigo sector ocidental.

É isto a democracia participativa. Quando há decisões importantes a tomar, põe-se as cartas em cima da mesa, discute-se entre todos e decide-se.

Será que em Portugal alguém se vai lembrar de pedir um referendo regional para decidir o que vai ser do aeroporto da Portela quando o novo estiver construído? Temo que não, e tenho pena. Durante a novela da decisão sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa, uma das poucas vozes lúcidas que ouvi falava sobre a possibilidade de manter o aeroporto da Portela. Não como aeroporto principal, a tal ridícula opção “Portela +1″ que só adiava o inevitável, mas como aeroporto de negócios à semelhança do que os berlinenses discutiram para Tempelhof. Outra opção seria criar uma grande zona verde, à semelhança do Hyde Park de Londres. Fazem falta zonas verdes na Grande Lisboa, como toda a gente sabe. Ou então entregar toda aquela zona à especulação imobiliária e deixar o mercado funcionar, sei lá. Mas os lisboetas deviam ter uma palavra a dizer sobre o destino do seu velhinho aeroporto. Referendo já!

O meu pai é um excelente farejador de promoções. Consegue um notável rácio qualidade-preço sempre que vai ao supermercado e, por isso, tem sido ele a tratar das compras lá de casa desde que me lembro. Mas no que toca a viagens, tem muito que aprender.

Nunca imaginei que uma viagem Porto-Berlim pudesse durar quase um dia inteiro, incluindo um pousio de cinco horas em Madrid. Fiquei a conhecer aquele terminal de aeroporto como a palma da minha mão, incluindo todas as lojas, tabacarias, restaurantes, WC’s, escadas rolantes e corredores de serviço. E ainda me sobrou tempo para ler dois álbuns de BD e imprensa diversa, em castelhano e em português. Obrigado, Pai. Obrigado, gentil menina da agência de viagens, que oportunamente lhe indicou aquele fabuloso voo em promoção da Ibéria. No qual, a propósito, nem uma garrafinha de água era oferecida e os famintos viajantes tinham que desembolsar mais de cinco euros por uma mísera sandes. Será que os espanhóis venderam a sua companhia de bandeira à Ryan Air ou à Virgin? Tenho que investigar isso. Passados uns dias viajei pela Easyjet. A hospedeira ficou espantada com a exuberante alegria que demonstrei quando me disse que o sumo de laranja era grátis… :D

Segunda bagatela descoberta pelo meu pai graças à solícita menina da agência de viagens: Um hotel de quatro estrelas a um preço excepcional! A sua localização pouco central seria compensada pelo facto de ficar “a apenas dez minutos do aeroporto”, lia-se no prospecto. Mas eu, desconfiado, fui verificar. Cinco minutos no Google Earth bastaram para descobrir que há dois aeroportos principais em Berlim e que nós, no dia seguinte, íamos aterrar no “errado”, não no tal que estava a dez minutos do hotel… :P

Lado positivo: Depois de aterrar, tive oportunidade de treinar o meu alemão enquanto discutia com os funcionários dos transportes públicos de Berlim qual o tipo de bilhete mais indicado para turistas e quais as linhas de autocarro, metro e/ou comboio suburbano a tomar para galgar os quase quarenta quilómetros que me separavam da cama, da mesa e da roupa lavada. :D Saí-me surpreendentemente bem. Até servi de intérprete entre duas italianas e um alemão que tentava, sem sucesso, dar-lhes direcções.

Acabei por entrar no hotel com um sorriso nos lábios. Afinal falo alemão melhor do que pensava (embora ainda não tão bem como gostaria) e, no fim das contas, o hotel era bom. Situado na beira do rio Spree (que atravessa Berlim), bons quartos, esplanada com vista para um bonito palácio na outra margem, terraço, empregados educados e simpáticos. A aventura teve um final feliz.

Obrigado, pai. Obrigado, gentil menina da agência de viagens.

Cabo Verde

Um dos meus desportos preferidos é ir visitar os amigos. Especialmente quando estão emigrados em sítios interessantes. Só tive uma pequena amostra do que é a saudade do nosso jardim à beira-mar plantado quando estive um mês afastado na Alemanha e, na última semana, até do Toni Carreira sentia falta. :D Portanto, toda a gente fica a ganhar. Eles, porque lhes levo um bocadinho de casa. Eu, porque tenho o melhor guia turístico que se pode querer. Alguém que conhece a cidade ou a região em causa e que, mais do que debitar factos históricos ou curiosidades de pacotilha, me põe a par da sua vivência naquele lugar com aquelas pessoas. Como quem acrescenta uma banda sonora a um filme.

Fez na semana passada mais ou menos dois anos que regressei de praticar o meu desporto favorito num arquipélago árido perdido no Atlântico, ao largo do Senegal. Mais precisamente, na ilha de S. Vicente, cidade do Mindelo, capital cultural de Cabo Verde. Fui visitar a Anita.

Mindelo

Há quem diga que a Anita tem “um feitio muito próprio”. São opiniões. Na verdade, essa afirmação é um eufemismo para “tem uma língua viperina, é politicamente incorrecta e tem ocasionais explosões de mau génio”. Mas é uma amiga fiel e é assim que nós, os amigos, gostamos dela. E é mulher de coragem, não é qualquer pessoa que emigra para África de um dia para o outro, sem qualquer apoio exterior. Mas ainda bem que foi. Proporcionou-me o primeiro contacto com a África que fala português.

Mercado

Uma África quente, acolhedora e sempre alegre, apesar das dificuldades. Encontrei um povo tão gentil que por vezes até me senti constrangido. Como quando eu estava de pé no autocarro e um senhor, que quase tinha idade para ser meu pai, se levantou e me ofereceu o lugar. E depois de eu o recusar dez vezes, e ele o tornar a oferecer outras dez, tive mesmo que sentar-me. Os cabo-verdeanos chamam “morabeza” a esta atenção, esta deferência para com aqueles que visitam as ilhas. Já de pé, o senhor explicou-me que na Praia, a capital política do país, as pessoas são “mal-educadas”, razão pela qual a “morabeza” se estaria a perder por lá. Sorri. Também ali havia rivalidades entre ilhéus, como nos Açores há entre os da Terceira e os de S. Miguel.

São Vicente - Ilha M�tica X

Na perspectiva da Anita, a morabeza era apenas a maneira peculiar de os cabo-verdeanos serem chatos. E quanto a educação, “são todos iguais, eu é que sei os assobios e os piropos que aturo, o que vale é que são em crioulo e não percebo”. Mas aposto que até os piropos eram inocentes, do tipo “bô é b’nite” - a primeira coisa que aprendi dizer em crioulo, “és linda”. Podia ser útil. Por exemplo no caso de eu encontrar a Mayra Andrade por lá. ;)

Algo que me impressionou no país foi a evidente aposta na educação da sua imensa juventude (mais de metade da população tem menos de 30 anos). As estatísticas de alfabetização são quase de nível europeu. Há imensos ciber-cafés no Mindelo, sempre muito frequentados, e até nos cantos mais recônditos da ilha encontrei escolas sempre cheias de miúdos. Curiosidade: todas as escolas têm código de vestuário.

M�udos da Escola em Cabo Verde

A estes três, dei-lhes boleia para a escola num Opel Astra alugado, em troca de direcções. Para eles foi uma festa. :) Nesse dia, atravessei a ilha para ir até à vila do Calhau. Pelo caminho, fiz uma imagem que é uma metáfora daquela ilha, ou de todo aquele país.

Casa no Sopé do Monte

Uma casinha muito bonita, impecavelmente pintada e murada no sopé de um monte inóspito. Assim é o arquipélago. O viajante que vê do avião aquelas pequenas ilhas, escuras do basalto vulcânico, montanhosas e áridas, pergunta-se como é possível morar nelas e viver do pouco que elas dão. E a resposta é: Com muito trabalho, sacrifício e organização. A necessidade aguça o engenho, como dizia o poeta. Por exemplo, aproveitam todos os metros quadrados de terra arável dos leitos das ribeiras, secas a maior parte do ano. Abaixo, a ribeira do Calhau, uma das poucas manchas verdes da ilha.

Ribeira do Calhau

A escassez de terra arável e de pastagens leva a que a carne de vaca seja um luxo (e, geralmente, de má qualidade, dura como sola de sapato :P ). O único gado que vi foram algumas cabras que saltitavam naqueles montes despidos comendo a pouca vegetação espinhosa que surgia aqui e ali, por entre as pedras. Em compensação, o peixe é abundante e muito bom. O Atlântico ainda é generoso, naquelas paragens. Durante a minha estadia em S. Vicente, poucas coisas me deram mais prazer do que comer peixe-espada, cherne ou atum fresco numa qualquer esplanada, mirando o mar em boa companhia.

Barcos na ba�a do Mindelo

E pronto. Como esta viagem teve tanto para contar, vai ter direito a dupla entrada cá no blogue. Na próxima semana há mais. ;)

Petições…

Já que ando a falar sobre música, aproveito para um pouco de intervenção política. Soube que o Ministério da Educação vai remodelar o ensino artístico, preconizando, entre outras coisas, o fim do regime supletivo de ensino musical. Foi este o regime que eu frequentei. Depois das aulas da escola, ia para a Academia de Música de Espinho aprender tudo o que sei sobre música. No Ciclo Preparatório tive uma disciplina de “Educação Musical”, umas aulas onde os meninos cantavam “As Pombinhas da Cat’rina” e batiam palmas.

Se esta remodelação for avante, nenhum miúdo poderá ter um percurso igual ao meu. Ou envereda pelo ensino artístico e aprende música (com aulas de violino ou formação musical em vez de Geografia ou História, por exemplo),

Aprendiz de violino

ou então envereda por outro tipo de ensino e não aprende música (excepto “As Pombinhas da Cat’rina” com palmas ritmadas). Já existe uma petição online a pedir a suspensão e reavaliação desta reforma. Quem quiser pode assinar aqui.

Missas…

Pois é. Imperdoável. Um tipo que cria um blogue e depois não escreve nada durante um mês devia ser expulso aqui da WordPress. A mim, só me ocorre aquela defesa gasta, mas verdadeira, do “tive muito que fazer”. E a conjugação astral também teve parte das culpas.

Mapa do céu 2

Eu explico: como eventualmente é sabido, a Páscoa celebra-se no primeiro Domingo após a primeira Lua cheia da Primavera. Não sei o que é que os judeus estavam a pensar quando fugiram do Egipto numa altura dessas, qualquer prisioneiro sabe que essas noites não são propícias a fugas. Mas adiante. Este ano, há uma Lua cheia logo a seguir ao equinócio, o que faz com que a Páscoa seja muito cedo. E isso, agora que sou menino de coro, dá-me bastante mais que fazer…

Sim, menino do Coro dos Amigos da Academia de Música de Espinho e ainda por cima tenor, um dos tais que cantam mais fininho. :D

Este ano andamos a dedicar-nos à música sacra. Temos que preparar o belíssimo “Gloria”(RV589) de Vivaldi até à Páscoa. Para quem não conhece (e para quem conhece também), deixo aqui o início. Dois minutos e trinta e dois segundos para dizer “Glória a Deus nas alturas”.

Se todas as missas fossem assim as igrejas andavam sempre cheias. A alegria e a leveza na composição de António Vivaldi são notáveis. Dizem as más línguas que teria também uma notável alegria de viver, cultivando relações pouco consentâneas com o seu estatuto de padre.

Vivaldi

Foi até escrito um panfleto contra ele, acusando-o de adaptar óperas venezianas às capacidades vocais da sua amante mais famosa, a cantora Anna Giraud. Mas no fim das contas, estou convencido que ele teve o seu lugar no paraíso. Se fosse eu a decidir, teria. Só estes três minutos e meio compensam a meia dúzia de facadinhas no seu matrimónio com o Altíssimo… :D

“Só Tu és santo, só Tu és o Senhor, Jesus Cristo, juntamente com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai.” - quantas vezes, na minha infância, quase adormeci enquanto pronunciava estas palavras na santa Eucaristia. E não tinha que as dizer em latim. Mas a música transforma por completo a experiência de as ouvir e de as dizer. Estes senhores cantam quase tão bem como o Coro dos Amigos da Academia de Música de Espinho. Não acreditam? Venham a Espinho na Páscoa! ;)

Uma das coisas mais reconfortantes na vida (pelo menos para nós, os egocêntricos) é a nossa tendência para acreditarmos que a vivemos melhor do que os outros. Mesmo que manifestamente não seja esse o caso. Deve ser daí que vêm mitos como o de que “o dinheiro não traz felicidade” ou que a fama, além de só durar quinze minutos, destrói a vida privada de quem a tem. Mas estes mitos, apesar de serem um pouco imbecis, são o que separa uma massa imensa de gente remediada e anónima da depressão profunda, he, he. Não os subestimemos, portanto.

Cartoon Money

Outro exemplo é o dos adolescentes. O que impede muitos deles de enlouquecer com as mudanças hormonais e vivenciais que experimentam é a certeza inabalável de que a sua vida seria idílica (e todo o mundo também, por arrasto) se os deixassem fazer o que querem. O mundo (retrógrado e irremediavelmente doente) é que não os deixa. Pessoalmente, acho que todas as decisões importantes da vida de alguém deviam ser tomadas antes dos 18, enquanto ainda se sabe tudo. Ou, pelo menos, tudo o que interessa :D

Mafaldinha e Miguelinho - 1

Mafaldinha e Miguelinho - 2

Lamentavelmente, essa omnisciência tende a desaparecer com a idade do indivíduo (idade mental, bem entendido, há quem não chegue nunca à idade adulta :D ), até eventualmente chegar ao estádio do outro respeitável senhor que só sabia que não sabia nada…

Sócrates de Atenas

Nestes meandros do valor do conhecimento, do auto-conhecimento e das nossas relações com os outros, há coisas que nunca deviam mudar. Como os contos de fadas. Cinderela e Capuchinho Vermelho, boas. Bruxa e lobo, maus. Caubói, bom. Índio, mau. Padeira de Aljubarrota, boa. Meia-dúzia de soldados castelhanos, maus. Simples, como as pessoas gostam.

Padeira

Mas hoje em dia, o herói de contos de fadas mais famoso é um ogre verde, parolo e flatulento chamado Shreck. Os índios afinal foram vítimas de uma guerra de extermínio pela mesma cavalaria que aparecia sempre nos westerns a salvar o herói e a donzela em apuros. E a padeira de Aljubarrota, se vivesse no século XXI, estaria a ser julgada por crimes de guerra. Nestes tempos de relativismo moral, nem o baluarte da boa e velha dicotomia “Bem/Mal” que é a Terra Média de Tolkien escapa. Não é que alguém teve a ideia de escrever a versão “orc” da célebre epopeia do hobbit Frodo e companhia?

O Último Anel

Mais. Atreveu-se a descrever a Guerra do Anel como uma guerra de extermínio da “civilização orc, amante do progresso e das ciências” por parte de uma coligação conservadora e obscurantista de Elfos, Magos e Homens (estes últimos parceiros subalternos). Nem o amor imortal entre Arwen (princesa dos elfos) e Aragorn (pretendente a um trono dos Homens) escapa nesta nova (e vil) versão da história. Heresia! :P

Ora bem, agora a sério. Este Yeskov colocou a fasquia bem alta quando teve a ousadia de contradizer um autor como Tolkien. Mas safou-se bem. Teve a inteligência, a sagacidade e o talento para fazer algo mais do que uma simples sequela d’ “O Senhor dos Aneis”. Já fez melhor do que os descendentes do nosso saudoso Tolkien, que só sabem andar à procura de qualquer sarrabisco que ele tenha deixado perdido numa gaveta para o publicar imediatamente…

Na semana passada, tive uma prenda de Natal antecipada. Um saco de laranjas do campo, as primeiras da época. Adoro laranjas. São doces, frescas, saborosas, sumarentas. E é fruta com bom aspecto.

Laranjas1

Uma das coisas que eu gosto mais nelas é que são fruta de Inverno. Hoje importam-nas de lugares exóticos como Cuba ou África do Sul quando cá não é a sua época, mas amadurecer no mar não é o mesmo que amadurecer na árvore.

Laranjas de Silves

Parece que já no tempo do Al-Andaluz, as melhores laranjas de todo o mundo muçulmano vinham daqui do jardim à beira-mar plantado. Se calhar por isso é que “Portugal” é nome de fruta na língua árabe…

Laranja

Consta até que um califa, especialmente dado aos prazeres mundanos, disse uma vez ao seu vizir:

“As mulheres são como as laranjas. Só se perdem as que não se colhem.”

Era bom ser califa do Al-Andaluz naquela época… :D

Iberia 900

Uma das minhas frustrações de miúdo era não poder provar as laranjas e tangerinas do pomar dos meus avós, por causa de uma alergia estranha a certos nutrientes. Mas de vez em quando escapava à vigilância atenta da minha mãe, lá aparecia cheio de borbulhas e a dizer que não sabia porquê. :)

Felizmente, a alergia esbateu-se com a idade e as minhas frustrações passaram a ser outras. Portanto, com a vossa licença, vou só ali fazer um suminho…

Nouvelle Vague

Porto. Uma noite fria e desagradável de Dezembro, daquelas em que a chuva ocasional é bem-vinda por amenizar um pouco a temperatura. Desço a rua 31 de Janeiro e reparo na Torre dos Clérigos, coberta de enfeites de Natal. Um potente foco móvel no lugar dos sinos projectava luz nas nuvens e edifícios vizinhos, como se tivesse lá aberto recentemente algum clube nocturno da moda. Mas ontem a animação estava noutro lado. Virei para a Sá da Bandeira.

Esta e outras belas canções aqueceram-me a mim e a mais mil resistentes ao frio de granito aqui do Porto. Bossa nova, cabaret, até uns laivos de reggae-ska progressivo (se é que isso existe) soaram naquela sala, entre 1001 nuances. Tudo muito retro, bem entendido, muito Nouvelle Vague. E letras bonitas, que convidam a pensar. “Never underestimate the power of denial”, como dizia o outro:

Não, não fui eu que gravei isto - mas como dizia o mesmo de há pouco, podia muito bem ter sido…

Parecia que o estilo mudava ao sabor do protagonismo dado a este ou aquele elemento da banda. Cada um dava a sua pincelada e, pasme-se, o resultado final era coerente. A belíssima voz e a teatralidade dos gestos da Phoebe e da Mélanie encheram o palco. Gerou-se uma verdadeira comunhão com a assistência, que cantou parte das letras das canções mais intimistas com elas.

Para quem não sabe (eu próprio só descobri há pouco tempo), esta banda só toca covers. A maioria de êxitos da new wave. Só foi pena o Moby não estar lá :D

E a beleza decadente do teatro Sá da Bandeira assentou que nem uma luva em tudo aquilo… lindo!

Oriente Próximo

Pois é. Afazeres vários têm-me arredado da blogosfera e os meus leitores (sempre em número crescente, já são quase 5 desde que convenci a minha família a vir cá) estavam a ficar impacientes. Além disso, foram feitos alguns reparos ao rumo editorial do site: “Ó filho, isto está muito giro mas fala pouco sobre viagens” foi um dos comentários mais ouvidos :D

Sempre sensível ao público, recordo agora a minha última incursão ao Norte de África, na Primavera de 2003.

Sinal de trânsito

Na altura viajava sem máquina fotográfica, mas arrependi-me logo. A beleza das paisagens e o exotismo das cidades precisavam de ser registadas e lá consegui arranjar uma câmara descartável, um verdadeiro achado naquelas paragens. Se o saudoso D. Sebastião algum dia regressar de lá, há-de passar por estas montanhas que circundam Chefchaouen…

Marrocos Chefchaouen

Atravessamos o Estreito em direcção a Ceuta, um pedacinho de Europa desde 1415 graças aos Portugueses. Explicaram-me no Museu Militar da cidade porque é que a sua conquista foi um dos maiores feitos militares de todos os tempos (o facto de ter sido dada por um espanhol torna a informação credível). Foi a primeira de muitas referências a Portugal na viagem. Aprendi, entre outras coisas, que Casablanca foi fundada pelos Portugueses e que lhe chamavam “Casa Branca”. Abaixo, um pôr-do-sol visto da bela cidade muralhada de Arzila, nosso entreposto comercial durante séculos.

Marrocos Arzila

Cruzamos portanto a fronteira em Ceuta. A fronteira entre Espanha e Marrocos, Ocidente e Islão, Norte e Sul. Mas não vi choque de civilizações, e tive mais medo dos carteiristas do que dos terroristas. Vi sobretudo pessoas que lutavam por uma vida melhor para si e para os filhos com menos de €100 por mês, e nunca baixavam os braços porque não podiam. Ofereciam-nos chá de menta por tudo e por nada e diziam que gostavam de nós (portugueses) porque regateávamos muito. Um comerciante chegou a dizer-me que “se um cliente não regateia, é porque não dá valor ao produto”. Paradoxal, no mínimo…

Marrocos - Banca de Azeitonas

Passei por um bosque de cedros (os maiores que já vi) povoado por umas criaturinhas simpáticas comedoras de amendoins:

Marrocos - Bosque de Cedros

Ah, e também vi neve! Para mim que cresci no litoral, isso é sempre uma festa…

Marrocos Neve

Foi na cordilheira do Atlas. A estrada era horrível, horas e horas de curvas, mas valeu a pena o sacrifício.

Marrocos Atlas

Fui um turista dedicado. Visitei a Ménara de Marraquexe e os belíssimos jardins e parque biológico adjacentes. Tirei esta fotografia sofrível à Mesquita Koutoubia, outro dos ex-libris da cidade. Surpreendeu pelo cosmopolitismo e relativa modernidade esta Marraquexe, com as suas avenidas largas herdadas da França colonial. Sentia-se a movida todas as noites e viam-se mais mini-saias e tops decotados do que numa cidade europeia. E não eram as turistas que as usavam, eram mesmo as marroquinas. A lei que daria às mulheres direitos iguais aos dos homens (a Moudawana) só chegaria no Outono desse ano, mas já se falava disso. E sentia-se, na rua.

Marrocos

Como qualquer turista dedicado, entrei em Fez pela porta Bab Bou Jeloud e visitei o bazar. Mas a parte da viagem que me marcou mais foi mesmo a passagem pelo deserto. O Sara não é nada como eu imaginava. Os oásis não são um par de tamareiras ao lado de um poço, mas sim grandes áreas densamente povoadas de vegetação luxuriante onde chegam a viver milhares de pessoas.

Marrocos Oásis

Além disso, as grandes extensões com dunas de areia fina são a excepção e não a regra. A paisagem típica do deserto é inóspita, sim, mas pedregosa (aqui, com uma tenda berbere ao fundo):

Marrocos Deserto com tenda berbere

Claro que tivemos que passar por uma zona de areia (Merzhouga). Subimos a uma duna com mais de 100m de altura…

Marrocos - Subida à duna

…para admirar o pôr-do-sol numa das paisagens mais bonitas e tranquilas que já vi.

Dunas Sara

Lá, a centenas de quilómetros da auto-estrada mais próxima, o tempo ainda corre devagar. Não há o assédio organizado ao turista ocidental que nos obriga a andar em grupo nas cidades, e aqueles que sabem francês falam connosco só pelo prazer de nos ouvir descrever países distantes, ou para discutir futebol e política com alguém diferente. Na altura, o Bush filho preparava-se para invadir o Iraque e o processo de paz na Palestina continuava no caos de sempre. Foi uma surpresa para mim quando eles puxaram esses assuntos e verifiquei que as nossas opiniões tinham muitos pontos comuns. O essencial é haver moderação, e ela existe. Lá e cá. Só no futebol é que não. Aqueles ignorantes tiveram o desplante de dizer que o Zidane era o melhor do mundo na altura, quando toda a gente sabe que era o Figo :p

Pormenor da nossa pousada, perto de Merzhouga:

Marrocos - Pousada Merzhouga

Resumindo, Marrocos surpreende pela multiplicidade das paisagens, dos aromas, da gente e dos sabores. Acima de tudo, é onde o Oriente está mais próximo de nós.

Marrocos Berberes nas Portas de…

PS: Um agradecimento especial à Rachel e ao Ed, turistas fotograficamente mais precavidos do que eu, por divulgarem o álbum da sua viagem a Marrocos. Tomei a liberdade de incluir algumas das suas fotos no meu relato (a primeira e as duas últimas). Agora já aprendi a lição, máquina sempre à mão ;)

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